Rock Sound: O Guia do Mochileiro Para Dominar As Galáxias

Em fevereiro, Tyler e Josh estamparam a capa da Rock Sound mais uma vez. A revista foi colocada à venda no site oficial e vem com 12 pôsteres de artistas variados e um bracelete da banda de brinde.

A matéria, escrita por Ryan Bird e com fotos de Ben Gibson, conta com uma entrevista da banda feita antes da viagem deles ao Reino Unido no último mês, onde fizeram shows da parte europeia da Blurryface Tour. Você pode conferir scans da revista (clique nas miniaturas para abrir as páginas) e a tradução completa feita por nós logo a seguir.



Em 2015, Twenty One Pilots se tornou um fenômeno mundial. Com a maior turnê deles pelo Reino Unido chegando, nós fazemos a eles a pergunta que está na cabeça de todos: como isso aconteceu e aonde eles vão daqui?

Ao meio dia de um frio e tempestuoso sábado em novembro, a fila do lado de fora da Oxford Academy é um viveiro de antecipação. Seis horas antes das portas do local serem abertas, centenas de pessoas se amontoam — algumas sob cobertores e lençóis de plástico que em breve virão a calhar — enquanto gorros vermelhos, mochilas fixas sobre os ombros e mãos pintadas de preto são visíveis a cada poucos metros. Burburinhos rápidos e gritos penetrantes preenchem o ar, compassados apenas pelo som de peles batendo juntas conforme dezenas usam o tempo para aperfeiçoar um aperto de mão — um que se tornou sinônimo de seus criadores ao longo dos últimos seis meses.

Muitas horas depois, no santuário de seus camarins, Josh Dun e Tyler Joseph — mais conhecidos como twenty one pilots — estão falando sobre essa fila, que agora se estende tão longe quanto os olhos podem ver.

“A única vez em que eu esperei na fila foi há alguns anos atrás, quando fui ver Angles & Airwaves,” diz Josh. “Fui com a minha namorada e ela estava ansiosa para chegar cedo — até então eu nem sabia que era uma coisa que as pessoas faziam. Se eu quero um bom lugar no show, eu provavelmente poderia empurrar até chegar lá na frente, mas naquele dia eu tive uma experiência totalmente diferente daquela que teria se tivesse aparecido cinco minutos antes da banda ir para o palco. O sentimento de ver a abertura dos portões, entrar, assistir ao show de abertura e as luzes finalmente se apagando… foi diferente. Pela primeira vez, uma banda indo para o palco verdadeiramente foi como um momento especial.”

Nos seis meses desde que a Rock Sound esteve com a dupla, multidões como a que atualmente se reúne do lado de fora do local com capacidade para 1,000 — o menor de uma turnê no Reino Unido, sendo modesto — se tornaram frequentes. Esses meses têm representado um período construído em momentos deles: shows esgotados em todo o planeta; um álbum número um de vendas que já conquistou o Disco de Ouro [prêmio de reconhecimento a 500 mil cópias vendidas]; numerosas aparições na televisão; uma performance de cair o queixo no VMA onde os vimos sentados próximos a Kanye West… a lista continua. Em suma, twenty one pilots é agora uma das bandas que mais crescem no planeta. De acordo com Tyler, isso acontece graças a fãs como os que estão em fila na calçada. “Estou muito orgulhoso do que as pessoas de fora têm criado,” ele sorri. “Eles podem olhar para nós e sentir que nós criamos esta coisa — essa banda, essa comunidade — mas não é o caso. São eles, se unindo e criando juntos esse ambiente, que fazem essa banda ser o que é. Isso é tudo eles.”

Apenas 10 anos atrás, tudo sobre hoje — tanto dentro quanto fora dessas paredes — teria sido estranho para Tyler Joseph. O vocalista só assistiu ao seu primeiro show quando tinha 16 anos. Em frente a apenas algumas dezenas de pessoas (“Um amigo de um amigo estava tocando — seu nome era Dave”, Tyler se lembra), o que viu naquela noite iria mudar sua vida.

“Quando você é uma criança que nunca foi a um show antes, a experiência é diferente de tudo que você conhece,” ele relembra. “É de outro mundo. Provavelmente não parecia que eu estava me divertindo da perspectiva dos artistas, mas todo o meu mundo mudou. Até então eu comecei a tocar e escrever algumas músicas, mas eu não sabia como levá-las para o mundo, mas aquele show me deu a resposta. Ver o palco foi como uma epifania. É onde minha música precisa ir.”

O local naquela noite foi Scarlet & Grey Cafe, com capacidade para 300 pessoas e bem próxima ao complexo habitacional estudantil da Universidade Estadual de Ohio, na cidade natal da banda em Columbus. Para Josh, a primeira vez que sentiu o sabor de música ao vivo foi semelhantemente humilde, chegando na forma de um show em outro lugar em Columbus, Skully’s Music-Diner. “Eu fui ver um rapper porque obviamente pensei que o Eminem era tipo a melhor coisa do mundo no momento!” Josh sorri. “Esse cara tinha uma banda ao vivo tocando com ele. Aquilo me tocou porque muitos rappers e artistas de hip-hop tendem a usar um DJ, então isso deu à performance uma dimensão diferente, especialmente visualmente. Nos anos oitenta e noventa, foi bom para as pessoas apenas ficarem no palco e tocar. Essa era a época dos deuses do rock, onde as pessoas no palco pareciam ser de outro planeta e encapsulavam o público completamente sem mover um músculo, mas hoje em dia é importante manter as pessoas envolvidas. Esse show desempenhou um papel enorme em formar minha opinião do que a música ao vivo deve ser — um evento.”

Se você já testemunhou twenty one pilots em carne e osso, você saberá que a palavra “evento” se encaixa como uma luva. A investida visual e sonora na qual se vê tanto vocalista e baterista fazendo as suas partes, seu explosivo show ao vivo tem impulsionado os mesmos para alguns dos maiores palcos. No momento em que você ler isso, a dupla vai estar prestes a enfrentar duas noites na Brixton Academy, com capacidade para 5,000 pessoas, como uma parte da turnê pelo Reino Unido, que reunirá cerca de 30,000 pessoas. Quando eles retornarem para a América, uma enorme turnê que vai durar todo o verão terá conclusão com dois shows em um cartão postal de New York, o famoso Madison Square Garden — um local com capacidade para 20 mil pessoas e que geralmente marca o ponto mais alto da carreira de um artista. O duo vendeu todos os ingressos do primeiro show em menos de três horas.

“Falamos muito sobre o nosso início de carreira em nossas entrevistas,” reflete Josh. “Falamos sobre fazer shows sem ter noção alguma de quantas pessoas apareceriam. Às vezes eram 30, em outras 100 — nós nunca sabíamos. Estar onde estamos agora, sabendo quantas pessoas aparecerão — e é um número bem maior — é muito legal. Ver pessoas em outros continentes, a milhares de quilômetros de nossas casas, estarem tão interessadas na banda… não poderíamos pedir mais nada.”

Obviamente, nem sempre foi assim. Pergunte a eles qual foi o menor número de pessoas que foram a um dos shows e responderão em uníssono: duas.

“Eles eram jornalistas de um jornal universitário,” ri Josh. “Fizemos uma entrevista com eles no dia anterior ao show — eu acho que isso foi no Arkansas — e à noite eles eram as únicas pessoas lá. Foi estranho, mas posso dizer honestamente que tocamos do mesmo jeito que tocaríamos para uma audiência de mil pessoas.”

“Houve outro show assim,” adiciona Tyler, “Foi em Buffalo, Nova Iorque, e nós tocamos apenas para a outra banda. Tecnicamente você poderia dizer que havia 5 pessoas lá, mas na verdade não, porque ninguém pagou para entrar. Mas pra essa banda foi pior ainda, porque quando nós assistimos ao show eles estavam tocando apenas para duas pessoas!”

Olhando para o passado é fácil rir e falar com carinho dessas ocasiões, mas como qualquer pessoa que tenha tido a experiência de fazer parte de uma banda lhe dirá, a falta de interesse do público pode ser difícil de aceitar. “É difícil ver que quase ninguém apareceu para assistir ao seu show e se sentir encorajado,” admite Tyler. “Isso não é algo que te fará sentir exatamente que você está progredindo.”

“Eu sei que, apesar disso, Josh e eu sentíamos um ao outro evoluindo a cada noite,” ele continua. “Precisávamos desses shows e desses momentos para descobrir quem somos como banda e como músicos. De um jeito estranho, esses shows acabaram sendo alguns dos meus favoritos, porque se você está em cima do palco na frente de cinco pessoas, você tem a oportunidade de impressioná-las. É como, ‘Se eu irei tocar para cinco pessoas, irei impressioná-las totalmente!’ Eu ficava animado ao saber que aquelas pessoas estariam ali sentindo que tudo o que fizéssemos naquela noite seria apenas para elas.”

De certa forma, é mais difícil se motivar para um show agora do que era antes?

“Eu sinto que devo dizer sim, mas quero deixar bem clara a razão disso,” ressalta Tyler. “Em um momento ou outro, a hora do show chega e eu estou cansado, doente, desanimado ou qualquer uma das combinações acima, e quando penso no passado percebo que nunca sentia essas coisas. Não me senti assim uma única vez quando tocávamos para apenas algumas pessoas. Não estou dizendo que faço um show de qualquer jeito ou não ligo para nossa performance, mas é diferente agora, de algum jeito. Sinto coisas agora que jamais senti quando tocávamos para cinco pessoas.”

O que você acha que as pessoas que assistiram vocês tocarem no passado pensam agora, olhando para tudo o que a banda tem feito recentemente?

“Nós encontramos um deles há pouco tempo atrás,” revelou Josh. “Há alguns anos, nós tocamos em Indiana e ficamos na casa de um garoto — eu lembro que o porão dele estava cheio de produtos da Coca-Cola. Há umas semanas, eu o vi num show e ele estava me contando sobre como tem sido legal ver a banda crescer desde aquela época. Definitivamente há uma sensação real de orgulho vindo dele, e de outros que nos viram no início. É quase como se todos tivessem virado um street team (grupo de fãs que divulgam os conteúdos da banda para outras pessoas sem cobrar nada por isso).”

Existem muitas pessoas assim,” adiciona Tyler. “Pessoas que nos ajudaram e apoiaram, que merecem sair com a gente e entrar em todos os shows de graça. Às vezes eu gostaria de poder apertar o botão de pausa e tirar um tempo para agradecê-los. Nesse momento tudo está acontecendo muito rápido, e isso pode ser difícil. Às vezes me sinto mal porque eu quero dar às pessoas mais do que posso.”

Durante o breve ensaio fotográfico de hoje, que aconteceu a apenas alguns passos de uma fila que já se estende por 180 metros, é fácil de perguntar-se quem mais Tyler sente que está negligenciando. Quando questionado para rabiscar destinos em pedaços de papelão, para imitar aqueles utilizados por mochileiros, Josh escreve as palavras “palco da direita”. Tyler, curiosamente, escolhe a palavra “lar?”, sua interrogação prova uma conclusão fascinante.

“Eu tenho uma tendência para separar meus relacionamentos em compartimentos,” ele confessa. “Coloco muitas das pessoas que eu me importo em uma caixa, então quando eu estou na estrada é como, ‘Deixe-me terminar isso e então voltarei e poderemos fingir que eu nunca fui embora.’ As coisas não funcionam assim, então estou tentando melhorar para manter essas conexões enquanto estou longe. Talvez isso seja um mecanismo de defesa para me conter de me sentir desapontado por sentir saudade das pessoas.”

Um sorriso toma conta de seu roto.

“Provavelmente eu só preciso superar isso…”

Além do grande número de pessoas que agora vão aos seus shows, tudo sobre twenty one pilots é um grito distante de onde eles estavam até dois anos atrás, e mais ainda antes disso. Hoje em dia eles carregam uma equipe de 14 pessoas — um número que aumentará esse ano — e trocaram vans por ônibus de turnê de dois andares e hotéis. Apesar de o show da noite passada no Shephred’s Bush Empire ter sido a apenas uma hora de distância, a banda e sua equipe puderam passar a noite em um hotel em West  London, com os dois colegas de banda chegando no local do show de carro. É o sinal que indica que uma banda está provavelmente se saindo bem.

“Uma das coisas com as quais eu sempre me preocupei enquanto a equipe crescia era a dinâmica, tinha medo de que ela mudasse com essas pessoas.” Diz Tyler. “Nós mantemos a mesma equipe em todas as turnês. Nosso agente de turnê foi o primeiro a dirigir para nos levar a um show na van do meu pai, e ele continua conosco agora. É legal, porque quase todas as pessoas na nossa equipe estão fazendo o trabalho pela primeira vez. Um ou dois já tem experiência, mas nenhum deles saiu em turnê com outra banda.”

“Existe uma certa quantidade de ignorância com o que fazemos  e com o que gostamos,” concorda Josh, “então nos convém que as pessoas que nos cercam tenham tão pouca experiência quanto nós. Nós temos nossa própria forma de fazer as coisas e parece funcionar — a última coisa da qual precisamos é que alguém que mal conhecemos chegue e nos diga que estamos fazendo é errado, parece muito certo.”

É um ponto justo e honesto com o qual o par sempre tratou as coisas. No começo, eles viajavam para os locais dos shows em uma mini van que pertencia ao pai de Tyler, essa qual o assento era retirado para dar espaço para os equipamentos. Mantendo seus empregos normais, o par costumava tocar nos fins de semana, guardando cada centavo que não precisava ser usado para levá-los para o próximo show. A partir disso, eles compraram sua própria van. “Eu ainda tenho ela”, sorri Tyler “está emprestada para um amigo”. levando cada semana do modo que viera e construindo não só uma banda, mas como também um negócio auto suficiente.

“É uma palavra suja para algumas pessoas, mas você tem tratar alguns aspectos de estar em uma banda do mesmo modo como você trataria qualquer outro negócio,” diz Josh. “Nós conhecíamos várias bandas na nossa cidade que fizeram vários empréstimos de dinheiro, compraram equipamentos e veículos e todas essas coisas, e então não conseguiram pagar o dinheiro que estavam devendo. Como uma banda local, fazer shows fora de sua própria vizinhança é caro. Você precisa de comida, combustível e talvez até hotel — essas coisas não são baratas.”

“Muitas bandas gastavam todas suas economias particulares para fazer uma turnê nacional de dois meses seguidos, e aquilo não fazia sentido para nós de forma alguma” adiciona Tyler.

“Essa é uma das razões pela qual montamos essa inteiramente em Ohio, porque era acessível. Nunca nos acrescentou nada fazer shows para ninguém e sem cachê a milhares de quilômetros de casa. Sim, nós fizemos alguns shows desse tipo, mas nós tínhamos uma gravadora nos dando suporte e um plano de desenvolvimento — eram investimentos e estava sendo feito no momento certo pelos motivos certos. Para cada história como a nossa, existem milhares que não acabam bem.”

Incrivelmente, a dupla funcionava desta maneira há apenas três anos atrás, o que parece ultrajante devido a sua posição atual.

“Mesmo que as coisas tenham começado a explodir durante esses meses que passaram, para nós ainda parece que foi uma subida lenta,” diz Josh. “Não parece que [o sucesso] aconteceu da noite para o dia.”

“Tudo o que fazemos tem base no que fizemos antes,” continua Tyler. “Pode parecer como se tivéssemos ido de A para B, mas é mais como de E para F. Nós vamos tocar no Brixton Academy em Londres, mas essa será a quinta ou sexta vez que tocamos como headliners em Londres. Vamos tocar no Madison Square Garden em Nova York, mas essa será a quinta ou sexta vez como headliner lá também. Nós temos construído tudo isso organicamente, do zero, e agora estamos vendo o trabalho sendo recompensado.”

“Quando você passa tanto tempo em turnê como nós, isso pode te desligar de tudo que está acontecendo,” ele continua. “Nós tentamos ajudar um ao outro nessa parte, para ter certeza de que não vamos nos tornar alheios a tudo o que acontece a nossa volta. Gosto de falar sobre o nosso primeiro show no estado de Nova York, aquele no qual nós só tocamos para a outra banda que estava lá, porque quando você vê que esgotou todos os ingressos para um show no Madison Square Garden você se dá conta. O presente parece ainda melhor quando você se apoia no passado.”

Quando a hora do palco chega e as luzes começam a cair — um movimento do interruptor que vê aquelas experiências presentes, um momento como o que Josh mencionou mais cedo —  é o futuro, ao invés do passado ou presente que toma o meio do palco. Ao longo dos seus cativantes 90 minutos no palco, três coisas se tornam claras. A primeira é que exceto raros shows curtos como os de aquecimentos para festivais, Twenty One Pilots nunca mais fará um show em um espaço deste tamanho. A segunda coisa é que dentro de mais ou menos 12 meses, eles vão liderar pelo menos uma arena em solo britânico. A terceira coisa — e você pode cortar isso e guardar no seu bolso — é que em algum ponto Twenty One Pilots vai liderar o festival Reading & Leads. Eles não são arrogantes o suficiente para saberem disso por conta própria — eles parecem ainda não ter a mínima ideia de quão bons eles realmente são — mas dado o fato de tudo o que aconteceu até agora, um esperaria que quando esses momentos realmente chegarem, a dupla não vai desperdiçar tempo beliscando a si mesmo.

“Mesmo antes de começarmos a tocar juntos já começamos a sonhar juntos,” Josh diz.

“Antes tinham shows com quase ninguém lá, havia sonhos e objetivos que se esticaram para o nível que estamos alcançando no momento, e além. Nós falávamos sobre tocar em estádios — isso é algo que nós temos guardado antes de compartilhar, porque é algo estranho de se dizer —, mas nós sempre sentimos que era importante sonhar alto. Se você convencer a si mesmo do lugar mais alto que possivelmente se pode ir, esse é o mais alto que se pode chegar.”

“Nós não esperávamos nada do que aconteceu conosco, mas acreditamos que quase qualquer coisa tem chances de acontecer,” ele conclui, seu parceiro de banda assentindo em concordância. “Honestamente, nós só acreditamos no inacreditável.”


Blurryface está à venda na Saraiva e na Livraria Cultura.

Saiba mais sobre os shows de São Paulo e Rio de Janeiro.

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