The New Yorker: “Encanto discreto da nova maior banda da América”

Depois de publicarmos a tradução da crítica do The New York Times sobre a primeira noite do twenty one pilots no Madison Square Garden, trazemos agora a tradução completa de um artigo da revista nova iorquina  The New Yorker. A matéria foi publicada no dia 24 de agosto pela jornalista , que esteve presente na segunda noite de show da banda na arena mais famosa do mundo.

Jia não fez apenas uma crítica ao show dado por Tyler e Josh; também comentou sobre a escalada sorrateira do twenty one pilots nos charts americanos e mostrou como a banda cresceu discretamente. Esse foi mais um artigo em maior parte positivo para a banda, que vem arrancando elogios da crítica ao longo dos últimos meses. A jornalista colocou twenty one pilots no mesmo nível que Beyoncé em termos de atmosfera de show e elogiou a mistura e extravagância dos garotos de Ohio.


O ENCANTO DISCRETO DA MAIS NOVA MAIOR BANDA DA AMÉRICA

twenty one pilots está esgotando arenas em sua turnê atual enquanto continua praticamente invisível para aqueles fora de sua base de fãs ativos

Foto por Tim Mosenfelder.
Foto por Tim Mosenfelder.

No verão passado, a rádio pop começou a tocar uma música chiclete meio diabólica sobre homens jovens que temiam as exigências da vida adulta. Um ano depois, esses homens se tornaram a maior nova banda da América. Talvez você não esteja familiar com o nome twenty one pilots — eles têm sido um fenômeno discreto, esgotando arenas enquanto continuam praticamente invisíveis para aqueles fora de sua base de fãs ativos — mas você reconheceria o refrão de “Stressed Out” se ouvisse: a música está no ar sem parar de tocar por quase um ano. Tyler Joseph, o vocalista e compositor de vinte e sete anos, compõe ganchos que prendem a sua atenção; as melodias dele soam como dardos decolando em direção a um alvo, e o refrão de “Stressed Out” é tão brilhante quanto o seu tom menor poderia permitir. “Se pudéssemos voltar no tempo”, Joseph canta, “para os bons velhos tempos, quando nossas mães cantavam” — e aqui é onde os seus ouvidos provavelmente se arrepiam ao reconhecer o som — “para dormirmos, mas agora estamos estressados.”

Joseph é um homem habilidoso, um camaleão entre entre as músicas e também dentro delas. Nos versos de “Stressed Out”, ele faz rap, com um balanço tenso que lembra Macklemore ou Gym Class Heroes. Ele rima “empréstimos para estudantes”, que são ruins, com “casas de árvore”, que são boas; ele lamenta sobre as pessoas que dizem “Acordem, vocês precisam fazer dinheiro”. Por trás de seu fluxo encorpado, os instrumentais adocicados; um piano amacia a batida do baterista Josh Dun. A canção é tão idiossincrática — uma canção rap-rock, emo e lírica sobre um garoto precisar de sua mamãe — que parece apenas um sopro de um artista de apenas um hit. Mas não é bem assim: twenty one pilots continuam nos charts. Na semana passada, eles se tornaram a primeira banda alternativa a colocar dois singles no Top 10 da Billboard Hot 100 simultaneamente: “Heathens”, da trilha sonora de “Suicide Squad”, e a faixa emo-reggae “Ride”. Enquanto, “Stressed Out”, sua primeira cartada, continua no Top 30.

Todas as três canções compartilham a camaradagem canalha da entrega de Joseph e um ritmo meio paranoico. Quanto mais você ouve, mais difíceis elas ficam de categorizar. Joseph e Dun são cristãos devotos de Columbus, Ohio, e eles combinam características robustas do Meio Oeste americano com uma fluidez de gênero que parece ter a missão de confundir. O duo tem contrato com a Fueled By Ramen, um selo provavelmente melhor conhecido por apresentar o trabalho de Fall Out Boy, e eles compartilham de uma juventude insistente e uma melodia extravagante com seus parceiros de gravadora. Mas eles também variam entre eletrodance, dubstep, rap, reggae, nu-metal, folk ukulele, glam rock e baladas no piano em uma velocidade impressionante. Eles soam como Jason Mraz com Panic! at The Disco,  Coldplay com 311, Walk The Moon com Imagine Dragons e Porter Robinson. Diga o nome de qualquer artista ou banda liderada por um homem branco nas últimas duas décadas que tenha conquistado sucesso comercial significante ao mesmo tempo em que inspirava apatia dos críticos e você ouvirá esse som no twenty one pilots, se você ouvir o suficiente.

Essa estética amalgamada é atrativa para uma porção significante de ouvintes americanos, mas funciona como uma capa de invisibilidade contra escritores de música. Mais cedo nesse ano, na Times Magazine, Jayson Greene, um editor da Pitchfork, escreveu sobre o momento em que ele se deu conta de que a banda com a música #3 na América era uma banda da qual ele nunca tinha ouvido falar. “Sobre o que mais eu não estava sabendo?” ele perguntou. “Onde eu estava, em relação a todo o mundo?”

Na última quinta-feira, eu me encontrei com várias pessoas que foram ao segundo show esgotado do twenty one pilots no Madison Square Garden. Foi a última parada da primeira parte de sua turnê mundial com 119 shows agendados. A arena estava cheia, a plateia estava inquieta, e a atmosfera estava elétrica como a de uma partida eliminatória de basquete. Quando a banda dominou o palco, em suas máscaras de ski de assaltantes de banco, a audiência — com gente de todas as idades, com várias pessoas em seus trinta e poucos anos misturadas com adolescentes — coletivamente gritou histericamente. Na pista debaixo de mim, um jovem forte levantou outro homem em seus ombros. Por duas horas seguidas, enquanto homens em “hazmat suits” [uniformes contra materiais perigosos] disparavam fumaça cenográfica na plateia e Dun andava sobre a audiência dentro de uma bola de plástico de vermelha e Joseph cantava “My Heart Will Go On” como se fosse uma música do Queen e não da Céline Dion, esses dois jovens fortes, junto com a maior parte da arena, cantavam cada palavra.

O nome “vinte e um pilotos”, se você estiver se perguntando, vem da peça “All My Sons” (Todos eram meus filhos) de Arthur Miller, na qual um homem de sessenta anos chamado Joe Keller envia peças de aviões com defeito durante a Segunda Guerra Mundial, causando a morte de — bom, acho que você entendeu. É uma inspiração pesada. Assim como Blurryface, um personagem que a banda criou e usou para nomear o seu álbum mais recente. Blurryface “representa um certo nível de insegurança”, Joseph disse, e ele canta dentro do personagem Blurryface por uma parte do show, esfumaçando seu rosto e mãos em tinta preta. Os rostos do duo, junto com os que aparecem nos telões no palco, estão frequentemente cobertos por bandanas ou máscaras de hóquei ou capuzes meio fetichistas. Algumas vezes — quando uma melodia rapidamente entrava em pânico, ou quando Dun começava a tocar a bateria maravilhosamente, de forma apocalíptica pra ser mais precisa — eu me senti como se eu estivesse ouvindo à trilha sonora de um filme de terror patrocinado pela Hot Topic, na qual o grande e horrível terror era aprender a ser você mesma.

É uma estética estranha, outra amalgamação — uma mistura de “Mr. Robot” e “The Purge” liberada para todas as idades. Também parece um pouco óbvia, essa implicação de que o rosto, a verdadeira identidade de si mesmo, é perigosa demais para ser revelada. Uma leitura religiosa é fácil de ser notada: Joseph foi educado em casa antes de entrar em uma escola cristã onde o pai dele era o diretor, e Dun era proibido de ouvir hip-hop e rock. O refrão da canção de abertura do álbum soa exatamente como louvor e adoração: “Você pode salvar a minha alma suja e pesada?”. Mas, ao assisti-los, você fica com uma impressão mais simples e mais ampla. O que twenty one pilots faz melhor, no meio de sua mistura musical suburbana, é trazer certas iscas para adolescentes juntas: culpa com desafios, insegurança com segurança, paranoia com comando total.

A arena estava cheia de pessoas que estavam esperando por isso, e havia, no ar, um senso de adulação e comunhão cheia de lágrimas que eu associo com artistas do nível da Beyoncé — um sentimento que é particular de poucos músicos que enchem arenas. Eu mal sentei e ouvi  oitavas perfeitas. Joseph mal olhava para uma seção da plateia e eles davam gritinhos selvagens; quando ele e Dun saudaram [Michael Gibson,] seu gerente de turnê de longa data com uma placa e uma selfie, uma garota na seção atrás de mim bateu palmas e chorou. Mais perto do fim, eles tocaram “Stressed Out”, cantando o refrão a cappella com a plateia: quase vinte mil pessoas com seus celulares erguidos como velas, desejando que suas mães pudessem cantar para que eles pudessem dormir.


Extra: no momento de publicação dessa matéria na MKBR, o vídeo de Stressed Out está com 590 milhões de visualizações no YouTube, rumo aos 600 milhões!


Acompanhe a gente também no Twitter :.: no Facebook .::. e confira shows completos e vídeos legendados no nosso canal do YouTube.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *