twenty one pilots na Rock Sound: Dois em Um Milhão

Josh e Tyler foram capa da Rock Sound mais uma vez. A revista fez uma edição especial sobre o twenty one pilots com uma entrevista bem profunda e pôsteres feitos por fãs. Veja como comprar e leia nossa tradução completa!

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A Rock Sound fez bastante suspense sobre a sua Edição 220 antes de anunciar que ela seria um especial do twenty one pilots. A revelação foi feita no dia 7 de novembro, mas antes disso a revista foi postando um pedacinho da foto seguinte por dia, até que adicionaram a logo da banda a ela e confirmaram pra gente que a surpresa envolvia os dois garotos de Ohio.


Algumas horas antes, porém, fãs no Reino Unido disseram que em algumas lojas a nova edição da Rock Sound estava sendo vendida antes da hora (o lançamento oficial foi apenas no dia 9), e era uma edição de colecionadores para fãs de twenty one pilots. Ao comprar a revista você pode escolher entre 3 opções de capa: uma com o Tyler, uma com o Josh e uma com os dois.

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O anúncio oficial foi feito às 16h do Horário de Brasília, como prometido, e confirmou o que as fãs disseram mais cedo na internet.


Como dito pela própria revista, você pode encomendar uma das três capas (ou todas) da edição pelo site oficial deles de qualquer lugar do mundo, já que eles enviam para todo o globo. O valor da revista é de £3.99, o que dá R$14,75, fora o frete, que pode variar dependendo de onde você mora. É preciso usar um cartão internacional no ato da compra.

A Rock Sound postou um vídeo dos garotos falando sobre estarem animados por estamparem a capa da revista mais uma vez:



 

A matéria foi escrita por Ryan Bird e as fotos do ensaio foram tiradas por Adam Elmakias, um dos fotógrafos que já acompanham a banda há bastante tempo. Veja imagens da versão digital da revista e fotos do ensaio na nossa galeria e leia a tradução feita por nossa equipe de traduções a seguir:


Com o lançamento do ‘Blurryface’ há 18 meses, twenty one pilots se tornou uma das maiores bandas do século 21. Com a era do álbum entrando em sua reta final, a Rock Sound desvenda o segredo mais mal guardado da música.

Legados: Eles estão no centro de tudo. Sejam as intenções grandiosas ou pequenas, a ideia de deixar algo para trás é o que dá gás à nossa própria existência. Viver é morrer, e com a morte vem incerteza e medo. É um medo enraizado no desconhecido; medo de desaparecer e ser esquecido. É um medo do mundo girando sem fazer pausas, nem ao menos um segundo para se refletir no que nós temos a oferecer.

No quarto andar do prédio da gravadora, na filial de Londres, em uma sala observando uma estação de metrô, lotado de pessoas que provavelmente têm esses pensamentos regularmente, Tyler Joseph está ponderando o que ele deixará para trás.

“Quando eu olho para os últimos anos da minha vida, eu vejo o quanto a ideia de ter algum tipo de legado mudou,” ele sussurra suavemente. “Minha perspectiva era de que se apenas uma pessoa pudesse ser ajudada ou encorajada pelas nossas músicas, minha existência seria justificada por inteiro. Apenas recentemente eu comecei a pensar sobre o longo tempo que músicas vivem e a ideia de que elas permanecem por muito tempo após partirmos. Nós vamos ficar velhos, as pessoas irão parar de se importar com o que temos a dizer, mas nossas músicas e nossa mensagem irão continuar vivas. Quando você percebe que suas músicas podem viver mais que você, o processo de escrever uma canção se torna uma experiência assustadora.”

Hoje, de todos os dias, pensar sobre o fim parece, de alguma forma, prematuro. Muitos andares abaixo dele, ao lado da entrada de um prédio onde residem muitas das melhores gravadoras do mundo, que por sua vez habitam uma boa porção dos musicistas mais famosos do planeta, está um pôster de “Blurryface”. Tendo agora o segundo maior lançamento da gravadora, no qual Tyler e seu parceiro no twenty one pilots, Josh Dun, colocaram seus nomes, parece que o duo deixou de ser o segredo mais bem guardado do mundo da música para se tornar o mais mal guardado. Suas músicas foram transmitidas bilhões de vezes enquanto foram entregues em mais de um milhão de cópias físicas; fazendo história nas paradas musicais, quebrando recordes e ganhando diversos prêmios. Amanhã eles irão co-estrelar o segundo palco no Reading Festival — um evento em que eles apareceram pela última vez há três anos atrás, como banda de abertura no menor palco do local — enquanto hoje eles estão tendo suas fotos tiradas para aparecer na capa da Rock Sound pela quarta vez em 17 meses.

Vestido quase que completamente de branco, um boné pra trás escondendo seu cabelo recentemente descolorido, Josh se porta de uma maneira mais despojada e despreocupada do que a figura de seu companheiro de banda. Apesar do lado descontraído de Josh, a intensidade contida de Tyler e os eventos do último ano, mais ou menos, não estão perdidos nele. Falando nisso, há apenas cinco dias ele teve sua primeira experiência com paparazzi em Los Angeles. Foi um encontro que ele descreve como vazio, como se fizesse ele sentir algum tipo de valor sendo tirado dele. Como metade da, possivelmente, mais famosa dupla musical do planeta, é algo que ele está ciente de que terá que se acostumar.

“Nós temos acreditado no que essa banda é desde o início”, diz Josh. “Nós sempre sentimos o peso e o impacto das músicas, e queríamos compartilhar aqueles sentimentos com o maior número de pessoas possível, nunca teve nada a ver com fama ou notoriedade, ou a ideia de ser reconhecido. Nós dois ainda estamos aprendendo a conviver em paz com essas coisas, mas em relação aos nossos objetivos e ambições, os últimos 18 meses já fizeram com que nós excedêssemos todos eles, de longe. Em relação a onde pensávamos que estaríamos agora, é um mundo completamente diferente.”

Ele não está errado — realmente é um outro mundo — e é um em que basicamente todos os níveis pertencem ao twenty one pilots. Sendo rock ou outra coisa, não existe comparação para as realizações alcançadas com ‘Blurryface’, um álbum que aumentou o nível, não apenas para músicas alternativas, mas para a camada mainstream. É um fenômeno tão real e genuíno que seu semblante talvez não seja visto novamente por muitos anos. Sem pestanejar, é um dos álbuns mais importantes da geração, e eles são um dos casos mais curiosos do nosso tempo.

“Nós sentimos que nossas carreiras se articulam a cada show”
Tyler Joseph

18 de fevereiro de 2014, a Rock Sound está em pé nos suados confins da Oxford’s Academy 2. É uma casa de shows com capacidade de receber meras 400 pessoas, mas estamos aqui para ver a mais nova contratada da Fueled by Ramen da Atlantic Records. Casa de bandas como Paramore e Panic! At The Disco, a gravadora tem uma bem estabelecida reputação por ter os dedos no pulso da cultura do rock. Hoje porém, parece especial, diferente. Distante de estarem reunidos para testemunhar a nova contratação da gravadora que tem muito sucesso, as pessoas presentes estão aqui especialmente por essa banda. Desde o momento em eles surgem — dois homens acompanhados de um kit de bateria, um piano e um ukulele — é óbvio que intriga não está na agenda deles. Durante a hora em que o par está no palco, e apesar de terem apenas um álbum disponível — um lançamento ignorado por todas as publicações de rock no Reino Unido além desse — todas as pessoas presentes cantam todas as letras de todas as músicas. Os gritos, a fanfarra, o grande pandemônio que surge é diferente de tudo que vimos em anos, e as músicas são diferentes de qualquer coisa que tenhamos ouvido.

Mesmo não lançando o segundo álbum por uma grande gravadora pelos próximos 15 meses, já é óbvio que essa banda, twenty one pilots, é extraordinária.

“Eu me lembro quando eles assinaram com a gravadora e alguém do escritório americano me enviou um EP de três músicas do [cd de lançamento] ‘Vessel’, recorda Mark Mitchell, gerente geral da Atlantic Records do Reino Unido. “Tinha um post-it grudado que dizia, ‘Essa banda vai mudar a sua vida’.  Tem bastante ruído na indústria musical, mas essas seis palavras continuaram se mantendo verdadeiras.

Eu estava intrigado pelas músicas, mas não foi até eu vê-los tocando ao vivo no Camden Barfly em 2013 que eu verdadeiramente compreendi o que essa banda era. ‘Vessel’ ainda não havia sido lançado no Reino Unido naquele momento — eu estava de pé em uma platéia de aproximadamente 100 pessoas — e de todos naquele lugar, só eu e meu time não sabíamos todas as letras. Nós apenas ficamos lá e nos perguntamos, ‘O que está acontecendo?’ É uma grande confissão a ser feita, mas nós estávamos atrás dos fãs nesse quesito. Já havia algo grande acontecendo.”

Mesmo nesses momentos no início, já havia mais coisas acontecendo do que poderiam ser vistas. Tendo passado 2013 em turnê quase que constante, tocando em qualquer lugar e em todos os lugares, noites como essa em Oxford pareceriam capturar as bases de fundação da banda. Na verdade, a base já havia sido criada a muito tempo – twenty one pilots estava construindo paredes.

“Depois que lançamos ‘Vessel’ nós começamos a trabalhar em novas músicas quase que imediatamente” revela Josh. “‘Blurryface’ estava sendo criado e imaginado enquanto nós ainda estávamos promovendo um álbum que a maioria das pessoas não havia nem ouvido — isso é o quão longe nós estávamos trabalhando. Com ‘Vessel’ começando a crescer, nós começamos a ter mais conversas sobre o que viria a seguir. Quando você está lançando seu primeiro álbum você pode colocar o que você quiser — não existem expectativas. Se as pessoas reagirem positivamente fica mais difícil. De repente você tem algo a superar, e o que aprendemos com o ‘Vessel’ é que julgando pelas reações, nós teríamos muito para superar.”

Josh estima que 99 por cento do ‘Blurryface’ foi escrito na estrada, uma tarefa que se tornou mais fácil de acontecer com o passar do tempo. Com ‘Vessel’ crescendo lentamente mas de forma certeira, maiores luxos começaram a ser possíveis para a dupla, como eventualmente ser capaz de viajar em um ônibus de turnê ao invés de uma van. Com mais espaço disponível, ideias se tornaram ações com um estúdio móvel que acompanhava o par em ambientes dos fundos e quartos de hotéis por toda América. É um sistema que continuou a ser parte da rotina regular deles, os acompanhando em todos os lugares, da Europa à Ásia, promovendo uma solução constante, não importava onde inspiração fosse atingi-los.

“Nossa música e nossa mensagem continuarão vivas”
Tyler Joseph

“É de extrema valia para o Tyler e para mim ser capaz de sair do palco e entrar direto no estúdio”, Josh explica. “A qualquer momento, estando inspirados por um público ou um lugar, nós temos esse ambiente, e isso é super importante. Criando ‘Blurryface’, nós podíamos olhar para um show que havíamos acabado de tocar e nos perguntarmos o que nós achávamos que poderia ser feito para elevar um pouco o nível, e então aplicávamos àquilo que estamos criando. Nós tocávamos em frente a pessoas, nós capturávamos suas respostas e escrevíamos músicas inspiradas por isso tudo. Quando nós dizemos que ‘Blurryface’ pertence aos fãs, nós podemos comprovar isso.

“‘Blurryface’ foi inspirado por uma série de locais e rostos; pessoas que eu esperava alcançar de alguma forma,” adiciona Tyler. “Tudo que eu me importava ao escrever e gravar aquelas músicas era o que minha família mais próxima iria pensar, e o que os fãs que tínhamos na época iriam pensar. Eu não quero que pessoas nos vejam e balancem a cabeça, eu quero que eles sintam e se tornem parte disso. Sim, eu quero alcançar o maior número de pessoas possível, mas eu queria agarrar essas pessoas e mantê-las. Eu sabia que se nós quiséssemos chegar a um próximo nível, aquelas pessoas teriam que aparecer antes de tudo.”

Quando ‘Blurryface’ foi eventualmente liberado no mundo em maio do ano passado, se tornou mais claro que as pessoas não apenas estavam aparecendo, elas estavam aparecendo em multidões. Registrando uma imensa quantidade de 147,000 vendas nas primeiras semanas do lançamento, o álbum atingiu #1 na América, abalando as estruturas de uma indústria musical em choque. Nos meses seguintes, músicas do álbum dominaram as paradas e quebraram incontáveis recordes, atingindo 1 milhão de vendas em um ano. Vimos os dois serem bem vindos em tapetes vermelhos e palcos de premiações, lançando twenty one pilots para arenas em todos os estados americanos. Praticamente ninguém viu isso se aproximando, pelo menos do lado de fora.

“Tempo livre é algo com o qual eu luto” 
Josh Dun

“Nós sabíamos que nossa base de fãs estaria lá sem dúvidas”, disse Chris Woltman, o empresário da banda. “Do momento em que a música começou a tomar rumo para o mundo, havia uma forte sensação de que pessoas estavam se reunindo ao redor desse álbum e o que ele representa. Nós tínhamos três vídeos de música lançados entre o anúncio do álbum e seu lançamento, e você podia sentir o grande impacto através disso tudo. As pessoas não estavam apenas ouvindo as músicas, elas estavam genuinamente investidas nelas. Com o passar das semanas, realmente começou a se tornar algo forte, o surgimento de apoio era elétrico. Os fãs não poderiam ser parados.”

“Quando estávamos fazendo o álbum eu não tinha ideia do que isso significava além de simplesmente criar sons”, Tyler reflete. “Eu não tinha ideia e noção da posição nas paradas. A ideia de que uma gravação por inteiro pode ser definida pela quantidade de pessoas que respondem a isso nas primeiras semanas parece bobo pra mim.

Eu estava pensando sobre isso recentemente. Porque agora eu sei como as coisas funcionam, eu imagino se esse conhecimento vai estragar a criação do próximo álbum. Estou imaginando se a mágica de criar um álbum vai sofrer; se vai parecer oco de alguma forma. Estou imaginando se vai valer tanto quanto já valeu um dia.”

Ele pausa.

“Eu espero que sim…”

O imediato impacto global de ‘Blurryface’ estava claro, e não ficou por menos no Reino Unido. Enquanto estavam no país tocando vários shows em clubes, uma semana antes do lançamento de maio de 2015, a banda anunciou uma turnê maior para novembro daquele ano, incluindo uma data no Shepherd Bush Empire de Londres, com capacidade para 2000 pessoas.  No local para seu primeiro ensaio de capa da Rock Sound no dia que as vendas se iniciaram, cada data foi esgotada entre a chegada da banda e o subir de escadas para o estúdio fotográfico. Em setembro, dois meses antes da turnê começar, eles anunciaram outra para fevereiro de 2016. Levando em conta cerca de 30.000 ingressos, a vasta maioria foi adquirida antes de novembro sequer começar. No Natal, nada tinha sobrado. ‘Blurryface’ era, oficialmente, um  fenômeno mundial.

Nos bastidores de Birmigham Academy em 22 de Fevereiro desse ano, estava claro que a velocidade e ferocidade da tempestade não tinha perdido os homens no centro dela. “Nós sempre gostamos de dizer para nós mesmos que estamos revisitando amigos antigos quando estamos tocando”, disse Tyler na época, “mas a verdade é que embora há pessoas que já estiveram lá no show anterior, essa coisa está se movendo tão rápido que estaremos encontrando mais pessoas novas do que velhas. Cada show vem com um exercício de confiança, em ensinar as pessoas como as coisas vão. Quando Josh e eu ficamos nas plataformas no topo da plateia, eles irão saber o que fazer ou eles irão nos derrubar? A onda em direção ao palco está se tornando maior e mais forte toda noite — as pessoas irão ser cuidadosas umas com as outras? Eu posso manter elas seguras? Eu estou pensando sobre essas coisas toda noite, muda constantemente.”

A última turnê esgotada trouxe de volta a banda verdadeiro tempo livre desde que “Blurryface” começou. Deu tanto ao Tyler como Josh oportunidade para se reconectarem e passarem tempo com pessoas queridas. Pela primeira vez em muito tempo, deu a eles a chance de serem apenas pessoas. Não que isso necessariamente combine com eles.

“Tempo livre é algo com o qual eu luto” confessa Josh. “Eu sou o tipo de cara que gosta de acordar com um calendário cheio, e eu me preocupo se estamos ou não perdendo terreno de alguma forma. Sempre que temos tempo livre, seja por uma semana ou menos, eu começo a me questionar o que as pessoas estão pensando. Elas estão esquecendo-se de nós? Elas ainda se importam se nós não estamos fazendo algo para nos provar?  Será que elas já acharam outra coisa para ocupar seu tempo?”

“A nossa perspectiva nisso é muito ampliada, o que nos faz sentir como se nossas carreiras se articulassem a cada show,” concorda Tyler. “Cada show parece com um momento no qual nós pegamos essa coisa, a escolhemos e a levamos em frente. Não fazer um show nos faz questionar se isso nos faz regredir ou se outra pessoa se moveu mais à frente que nós. Nós não fizemos nada além de turnês nos últimos anos, e tudo que fizemos foi ver isso crescer, está impregnado em nós de forma que faz parecer que essas duas coisas andam lado a lado.

Antes de termos milhares de pessoas em cada cômodo, antes de termos disco de ouro ou músicas na rádio, tudo o que tínhamos era o show ao vivo e a audiência. Parece que se não fizermos shows esse crescimento irá parar, porque nós nunca experimentamos outra forma de sucesso que nós não tenhamos falado sobre em um camarim.

Nós estamos lentamente começando a perceber que nós podemos ficar uma semana de folga, ou até algumas semanas, e as coisas ainda vão seguir adiante”, ele continua. “Mas eu não sei se eu quero perder esse medo. Eu não sei se eu quero ficar totalmente em paz com isso. Se nós tivéssemos nos permitido sentir como se tivéssemos conseguido [vencer esse medo] e isso tudo ainda voasse, ainda assim nós nunca voaríamos tão alto quanto fizemos e podemos.”

Além do trabalho duro e dos shows em evolução, tinha muito mais a ser considerado enquanto fevereiro se desenrolava. Apesar de seu clipe icônico ter sido lançado 10 meses antes, ‘Stressed Out’ — a terceira faixa a ser revelada antes do lançamento de ‘Blurryface’ — estava se tornando um hit. Liderando as paradas dos rádios em qualquer canto do mundo, o vídeo da música estava agora sendo reproduzido dois milhões de vezes por dia no YouTube.

Também começou a dominar todas as principais plataformas de streaming, levando outras faixas do álbum com ela. Até mesmo apareceu no famoso programa estadunidense Lip Sync Battle, onde algumas das maiores celebridades da América se envolvem em uma batalha de mímica e coreografia. Contudo, o sucesso da música não afetou apenas o tamanho da audiência, afetou a sua composição. Expondo eles para mais e mais pessoas, — aproximadamente todos os níveis demográficos de repente sabiam o nome twenty one pilots — a audiência estava evoluindo quase noite após noite. Foi uma situação que Josh, particularmente, começou a pensar sobre. “Eu sei, sendo eu mesmo um fã, que existe um senso de orgulho em conhecer alguém antes de tudo mundo. Você sente que, de alguma forma, eles são a sua banda, e eu entendo como algumas pessoas podem ficar um pouco bravas, de uma forma estranha. Eu odeio a ideia de esse orgulho ser arrancado de alguém. Ao mesmo tempo, nós nunca acreditamos em limites. Todo o propósito dessa banda é pressionar limites e aprimorar a nós mesmos. Eu realmente espero que as pessoas continuem se orgulhando, apesar do fato de que está crescendo tão rapidamente.”

Tyler: Você acha que nós não deveríamos ter deixado nenhuma de nossas músicas tocarem no rádio?  Como seria hoje se nós nunca tivéssemos permitido?

Josh: Provavelmente seria diferente.

Tyler: Seria?

Josh: Na verdade, quem sabe? Nós nunca fomos notados por causa de uma música de sucesso, e nós nunca escrevemos uma propositalmente. Nós fomos notados porque as pessoas fizeram muito barulho; porque uma pequena quantidade de pessoas fez uma barulheira suficiente para fazer as pessoas notarem o que estávamos fazendo. Um grupo maior de pessoas fazendo muito mais barulho é provavelmente mais difícil de ignorar.”

“Nós acreditamos no que essa banda é desde o começo”
Josh Dun

Seis meses depois, de volta ao quarto andar, Tyler ainda tinha perguntas relacionadas a muito do ano anterior. Menos de duas semanas depois de nosso encontro, ele estava em cima do palco do Madison Square Garden em frente a mais de 20 mil pessoas. Vinte e quatro horas depois ele repetia a experiência, fechando a cortina de uma turnê de verão Norte-Americana que levou quase 50 shows e mais de meio milhão de pessoas. Tudo no ‘Blurryface’ fez o duo riscar coisas que estão na ‘lista do que fazer antes de morrer’ da maioria dos músicos em apenas 18 meses. Então o que resta há se perguntar?

“Às vezes eu me pergunto se eu teria gostado de ir em um ritmo mais lento, mais suave”, ele revela. “Eu não sei a resposta para isso. O que eu sei é que embora o ritmo tenha sido acelerado, nós não sacrificamos nada. Nós tomamos uma decisão deliberada de tocar em cada lugar em cada cidade e país que visitamos. Nós nunca perdemos a visão de onde nós sentíamos que estávamos e o que éramos capazes de oferecer.

Mesmo que alguém diga que nós podemos tocar em um lugar com o dobro do tamanho, nós vamos tocar no lugar que quisermos e que nós estamos confortáveis de oferecer”, ele continua. “A demanda para ver essa banda vem da qualidade do show e da confiança que as pessoas têm em nós para fornecer. Se nós tivéssemos gasto o ano passado tocando em lugares que somos capazes de encher apenas por pura demanda, ao invés de tocar em lugares que estamos confortáveis assumindo, nada disso teria funcionado. Isso só acontece que como o tempo passa, essas coisas vão se aproximando cada vez mais.”

Enquanto algumas coisas se aproximam, outras parecem mais distantes do que nunca. Por exemplo, a noção de vida familiar atualmente parece estranha. Com o ciclo de turnê para ‘Blurryface’ definido para se esticar por mais seis meses — tal como a demanda pura de uma base de fãs que continua a crescer de forma rápida — não parece que isso irá mudar tão cedo. É algo que a dupla teve que contornar de diferentes formas; Tyler trazendo sua esposa Jenna em turnê sempre que possível e Josh atirando-se mais e mais dentro da turnê mentalmente. De certas maneiras, o baterista criou um mundo em que não tem outra forma de vida, focando quase que completamente no que precisa ser feito em benefício da banda. Nós questionamos, entretanto, se esse ritmo tão intenso de trabalho é também uma forma de proteger a si mesmo das coisas que ele teve que perder.

“Existem várias coisas pelas quais sou grato e que eu sou abençoado de ter em minha vida,” ele explica “mas existem também grandes sacrifícios. Você perde muito, de nascimentos a aniversários e tudo entre isso. Esses são momentos que você nunca irá substituir. Como disse, eu gosto de estar ocupado. Nada me assusta mais do que a ideia de não ter nada para fazer.”

Uma das coisas que talvez o incomode, entretanto, é a fama. Se o baterista tivesse entrado no prédio onde ele está hoje há 18 meses — um prédio que vê o sucesso de Ed Sheeran e Bruno Mars perambular em seus corredores — apenas um punhado de gente responsável por trabalhar com a banda o reconheceria.

Hoje em dia até o faxineiro o reconheceria, e até, talvez, a pessoa dirigindo o carro que o deixou na porta da frente.

Coloque em evidência a já mencionada experiência com paparazzi e é seguro dizer que a moral de Josh nunca esteve mais alta, e com o baterista morando em Los Angeles, diferentemente de seu par na cidade natal de Columbus, é dificilmente fácil de se acostumar.

“Ser reconhecido é um dos sentimentos mais estranhos do mundo”, ele sorri timidamente. “Eu não me sinto diferente hoje em dia do que eu me sentia quando tinha 19 anos — eu honestamente me sinto como exatamente a mesma pessoa. Algumas experiências são mais intensas, porém. Tyler e eu estamos acostumados com pessoas nos abordando com histórias, ou algo a dizer sobre nossa música, e como as afetou ou ajudou. E isso é o que amamos. São encontros muito significativos quando ocorrem, mas parece que mais e mais pessoas começaram a procurar por algo vazio. Algumas pessoas querem uma foto com a gente, ou da gente, só pra colocar online porque talvez alguém saiba quem nós somos e se impressione. É definitivamente uma sensação estranha sair de casa e sentir que talvez pessoas cliquem câmeras na minha cara. Se esse é o preço que tenho que pagar pra levar a vida que levo, tocando música para milhares de pessoas e ter a companhia do meu melhor amigo todas as noites é válido e eu não fingiria o contrário. Mas eu não me sinto sempre confortável com este lado disso.”

“Eu vou te dizer agora mesmo que essa coisa de fama já ficou velha,” Tyler continua. “Fama nunca foi algo que eu almejei, embora eu estivesse ciente de que poderia potencialmente acontecer. Eu sempre quis atingir um grande número de pessoas. Eu quis falar com eles — mas talvez, inocentemente, eu nunca realmente compreendi do que eu teria que abrir mão para poder alcançar tais coisas.

As coisas mais básicas podem ser frustrantes. Tudo que você faz ou diz online é criticado e dissecado, e se você deixar uma pista de onde você talvez esteja ou do que esteja fazendo você poderia arruinar as férias em família, ou um dia de passeio com sua esposa. É muito mais difícil se desligar do que eu imaginei que seria. Eu sou grato por ter ficado em Columbus, Ohio. Eu sou grato de estar cercado de amigos e familiares, e familiaridades. Se eu estivesse em qualquer outro lugar, como Los Angeles ou Nova Iorque, eu não sei se lidar com isso ou processar essa ideia iria funcionar.”

Para Tyler particularmente, é fácil imaginar que esse intenso e constante escrutínio [pesquisa minuciosa] seria um coquetel desafiador. Apesar de ser muito mais introvertido que seu colega de banda, ele é claramente mais famoso, algo que vem puramente com a responsabilidade de ser a voz de virtualmente qualquer banda. Ele também criou uma duradoura impressão na cultura popular; sua touca vermelho brilhante no vídeo de ‘Stressed Out’ se compara à luva de brilhante de Michael Jackson para a geração do Tumblr. No momento da escrita [dessa matéria], seus seguidores do Twitter e Instagram combinadamente somavam um total de 3.8 milhões. Todas pessoas reais, todas esperando por um vislumbre de sua vida. Ou talvez, ele sugere, até mais.

“Eu tenho todos esses olhos e ouvidos apontados para mim agora, me esperando  fazer ou dizer algo chocante”, ele diz com um leve indicativo de sorriso. “Eu não posso ceder a isso, até porque, mesmo que definitivamente seja tentador, seria muito fácil. Seria tão fácil quanto  pegar meu celular e digitar algo provocativo no Twitter. Tap, tap, tap — pronto. Pandemônio.

Eu entendo porque certos famosos ou pessoas de alta sociedade fazem isso, porque é incrível o quanto e quão facilmente as pessoas enlouquecem sobre qualquer coisa insignificante. Seria ainda mais fácil para nós pegarmos essa ideia e aplicar em nossa música, e usar isso para fazer nossa próxima canção ou próximo álbum ser chocante, mas essas definições não estão na minha lista de prioridades. Eu quero que a próxima música ou álbum sejam a opção certa, não algo criado apenas para provocar.”

“Eu irei olhar para trás nesse capítulo da minha vida, como uma fonte de inspiração”
Tyler Joseph

É claro que a existência de uma próxima música ou álbum já está sendo considerada, e se os eventos recentes servem de referência de alguma forma, a demanda está maior do que nunca. Escrita para a trilha sonora do blockbuster de verão Esquadrão Suicida, ‘Heathens’ proporcionou ao mesmo tempo um primeiro gostinho de música nova em mais de um ano, além de ser uma das músicas com mais sucesso comercial da banda até agora. Mesmo o cover de ‘Cancer’ do My Chemical Romance, gravado especialmente para o tributo da Rock Sound para o ‘The Black Parade’, encontrou o caminho até as paradas nos dois lados do mundo. Todo mundo aparenta estar esperando pelo que vem a seguir. Já o Tyler? Ele está pensando sobre novas músicas e novos desafios mais do que você se dá conta.

“Quando eu estava de pé no palco da Madison Square Garden”, ele começa, “eu olhei pra cima e vi um cartaz escrito que o [cantor e compositor] Billy Joel já tocou lá 78 vezes. Se eu tinha alguma preocupação sobre perder minha tenacidade ou empenho por essa banda e o que eu posso conquistar como parte disso, aquele cartaz apagou todos aqueles sentimentos em um segundo.

Nós atravessamos obstáculos rapidamente, com certeza, mas existem obstáculos que nós nem temos ciência da existência ainda. Se eu não encontrar obstáculos, eu vou criar os meus.

Nesse momento estou constantemente encarando obstáculos. Estou pensando sobre o próximo álbum e como vai soar, qual é a narrativa e onde vai nos levar, e esse é o maior obstáculo até o momento. Quando você cria e consequentemente experiencia algo como ‘Blurryface’, se cria a necessidade de provar que você pode fazer isso novamente. Eu estaria mentindo para você se eu dissesse que eu sei que posso. Eu acho que posso, eu espero poder, mas eu tenho certeza? Nem um pouco, mas eu não quero continuar fazendo isso se não existirem mais coisas que eu preciso superar.”

“Não está perdido em mim, de maneira alguma, que nós fizemos algo incrível”
Josh Dun

É aquela palavra — superação — que talvez seja mais importante do que nunca foi para o twenty one pilots. Veja bem, além  de todos os sucessos no topo das paradas e conquistas, o que ‘Blurryface’ realmente representa são inseguranças; a batalha para derrotar as ansiedades e preocupações que praguejam basicamente todos os seres humanos. Normalmente, se diz que o amor é a emoção mais poderosa no mundo, mas é um álbum que fez milhões de pessoas questionarem se, de maneira sincera, o medo não é o dono desse título. Ele esteve presente em todos os parágrafos deste artigo, desde a ideia de legados e do que deixamos para trás até a incerteza do que acontecerá se nos atrevermos a recuperar o fôlego. Esses medos estão presentes em todo mundo, independente se você por acaso fica, ou não, de pé em um palco todas as noites. Na riqueza e na pobreza, na saúde e na doença, a preocupação de que não estamos preenchendo nosso potencial e a dúvida desabilitante sobre como seremos lembrados reina supremamente. Em poucas palavras, o que ‘Blurryface’ representa toca na ferida de uma emoção universal. Não existem dúvidas de por que o mundo caiu ao seus pés.

“Mesmo que as estações de rádio parassem de tocar as músicas deles amanhã, e a imprensa nunca mais escrevesse uma palavra sobre eles, não teria impacto ou os afetaria de forma alguma”, problematiza Mark Mitchell. “Essa banda se tornou tão poderosa e orgânica que mesmo que ninguém de fora da base de fãs os apoiasse, eles ainda seriam atração principal no Reading & Leeds pelos próximos anos.”

“Nesse momento seria difícil olhar tudo que nós conquistamos com esse álbum e dizer que nós sabíamos que faríamos tudo isso dentro de 18 meses,” adiciona Chris Woltman. “Nós definitivamente continuamos nos comprometendo com a base de fãs que já estava em crescimento e completamente apaixonada pela banda, e existe muito poder nisso. Nós sempre dizemos que nós não queremos ser parte da cultura pop — nós queríamos trazer a cultura pop até nós. Nós queremos levar nossa cultura para o mundo.”

Quanto aos dois responsáveis por tudo isso, eles estão completamente inconscientes para o quão raro tudo isso tem sido. Talvez um dia, quiçá em alguns meses quando a poeira baixar, eles se permitirão enxergar exatamente o que foi conquistado. Porém, novamente, isso iria requerer de fato parar.

“Eu estou ciente de tudo que aconteceu”, diz Josh, “Não está perdido em mim, de maneira alguma, que nós fizemos algo incrível, mas eu não cavei tão fundo nisso. Eu sinto que focar demais no que foi feito poderia acabar me distraindo do presente e do que nós ainda temos para o futuro.”

“Eu nem mesmo pensei nesse ciclo muito detalhadamente”, adiciona Tyler, “E isso porque tem sido algo tão monumental na minha vida que eu não me sinto preparado para envolver minha mente nisso. Tenho certeza que irei, mas foi uma série tão grande de momentos que eu sinto que eles merecem meu verdadeiro reconhecimento. Eu me perguntei se seria melhor para mim nunca realmente olhar para trás — se analisar isso poderia causar mais mal do que bem — mas fazer isso seria impedir o crescimento da minha criatividade. Quando eu começar a realmente mergulhar em escrever outro álbum eu vou olhar pra trás nesse capítulo da minha vida como fonte de inspiração, e aquelas pessoas que estiveram lá para isso terão músicas escritas sobre elas. Elas não sabem disso, mas elas já estão escrevendo o próximo capítulo dessa banda.”

Se esse capítulo continuar nesse ritmo, existirão mais pessoas que terão músicas escritas sobre elas do que pessoas que não terão.


O álbum Blurryface está à venda no Brasil nas lojas Saraiva, Americanas, Livraria Cultura e Submarino.


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