twenty one pilots na capa da Kerrang!: Lyrics Issue

 “Uma letra forte pode nos tirar de um lugar escuro, mudando completamente o nosso dia, mês ou ano, agindo como uma forma de terapia. Quanto melhor ela for, uma letra pode mudar uma vida.”

twenty one pilots foi mais uma vez capa da revista musical Kerrang! Dessa vez na edição especial chamada “The Lyrics Issue”, algo como “A Edição das Letras”, uma tradição deles na qual vários artistas são entrevistados para discutirem os segredos por trás das letras de suas músicas. Além dos garotos que estamparam a capa, a revista também trouxe matérias sobre Enter Shikari, Frank Iero, Pierce The Veil, Moose Blood e mais.

A edição K!1639 foi colocada à venda no dia 28 de setembro de 2016 em versão física e digital. A seguir, traduzimos a matéria sobre o twenty one pilots para vocês! Nela Tyler e Josh falam um pouco sobre sua carreira e sobre o processo de escrever letras das canções. Você pode conferir a versão digital da revista aqui na nossa galeria.


Scans da revista na nossa galeria.

Escrita por Emily Carter
Tradução: Joyce Saturnino
Revisão: Matheus Lopes


Meu nome é Blurryface e essa é… A edição das letras!

Letras são as palavras pelas quais todos nós vivemos; as expressões de alegria, desespero, e tudo entre uma coisa e outra que nos ajudam a dar sentido ao mundo. Nessa edição especial da Kerrang!, você nos verá abrindo os cadernos pessoais de letras das suas bandas favoritas, de Pierce The Veil a Enter Shikari e muito mais, para revelar os seus segredos. Mas antes, Emily Carter explora a poesia do twenty one pilots, a voz definidora da sua geração…  

De todas as palavras escritas pelas maiores bandas de rock ao longo dos últimos anos, poucas ressonaram mais do que o simples desejo de Tyler Joseph querendo ter uma voz melhor que cantasse palavras melhores no single que quebrou barreiras em 2015, Stressed Out. É um desejo sincero e sem complicações, algo que muitos artistas ainda desejam e não conseguiram satisfazer.

Enquanto as letras não são sempre a parte mais importante de uma canção — o ritmo talvez chame mais a nossa atenção, enquanto a melodia talvez fique mais na nossa cabeça a ponto de nos manter acordados à noite — essas “palavras melhores” são frequentemente o aspecto que vão fazer você amar uma música que antes apenas gostava. Um verso atraente tem o poder de nos mover como nada mais tem, agindo como uma motivação para levantar ou um amigo que nos conforta. Melhor ainda, uma letra forte pode nos tirar de um lugar escuro, mudando completamente o nosso dia, mês ou ano, agindo como uma forma de terapia. Quanto melhor ela for, uma letra pode mudar uma vida.

E apesar dos inúmeros poetas dos tempos modernos lá fora, em 2016 poucos receberam tanto carinho quanto o twenty one pilots. Profundo, mas ainda ambíguo, sincero sem se tornar meloso, intelectual, mas ainda assim inteiramente relacionável, as palavras do líder Tyler Joseph têm sido tatuadas na pele, escritas em biografias do Twitter e gravadas no coração de milhões. Desde as perguntas aparentemente comuns (“Incomoda alguém que outra pessoa tenha o seu nome?”, ele questiona em Forest) até maiores, como os demônios pessoais (A metáfora dolorosa de Migraine de “Será que sou o único que conheço que trava guerras por trás do meu rosto e acima da minha garganta?”), o chefe das palavras do twenty one pilots nunca se intimidou ao lidar com assuntos difíceis.

E ainda assim Tyler — que começou sua jornada de composições ainda na adolescência, mas não realizou seu verdadeiro chamado até seu primeiríssimo show, com 16 anos — se mantém cauteloso quanto ao tópico. “Explicar músicas e o que elas significam sempre foi uma coisa estranha da qual se falar,” admitiu o jovem de 27 anos durante o lançamento do primeiro álbum lançado por uma gravadora e que começou a chamar atenção, Vessel. “Quando alguém pergunta, ‘O quê você está tentando dizer nessa música?’ eu gostaria de poder simplesmente dizer a eles ‘Eu já disse na música.’ É difícil continuar falando sobre alguma coisa que eu sinto que já disse como queria dizer.’”

Entretanto, com o twenty one pilots se tornando o fenômeno musical de ascensão mais rápida já vista, o desejo dos fãs de se aprofundar mais e mais dentro das letras purificantes da dupla é mais forte do que nunca…

Tyler Joseph e Josh Dun nem sempre foram destinados a compor músicas para as massas. Na verdade, até a primeira apresentação de Tyler, já mencionada acima, no Scarlet & Grey Café em Ohio com capacidade para 300 pessoas, mais parecia que ele terminaria em um lugar totalmente diferente. Educado em casa quando criança e filho de um professor de matemática que viria a se tornar treinador de basquete e diretor, Tyler foi treinado para acertar 500 cestas todos os dias antes do jantar, tendo como objetivo final ganhar uma bolsa de estudos pelo basquete para aprofundar seu aprendizado na faculdade. Não é o tipo de educação que se espera de um homem que viria a se tornar um dos mais adorados compositores de sua geração.


“Eu encaro letras e música como momentos onde as pessoas podem pegar as coisas que as estão fazendo sofrer e libertá-las”
Tyler Joseph


Porém, eventualmente, o destino o viu recusar a oferta do esporte escolhendo compor músicas ao invés. E quando seu propósito foi cumprido, ele mergulhou no fundo extremo, sem permitir que idade ou influências (as quais ele possui várias — embora se recuse a dar nomes específicos como uma forma de permitir que o ouvinte faça sua próprias conexões) o impedisse de escrever suas próprias letras, importantes e e cheias de significados.

“Quando eu comecei a compor, eu tinha várias dúvidas enormes,” Tyler disse à K! ano passado, “O que é interessante é, que como um adolescente, eu me sentia mais livre para fazer essas perguntas do que vários adultos ao meu redor estavam me mostrando. Um dos meus primeiros trabalhos foi em um restaurante enquanto adolescente, e no dia em que fui contratado eles disseram, ‘Você não fala sobre política, religião ou dinheiro.’ E eu fiquei pensando, ‘essas são as coisas sobre as quais eu mais tenho dúvidas!’ Eu senti como se precisasse de uma saída para essas dúvidas. Essas músicas me deram uma saída. Eu não tinha as respostas para elas, e eu não estava usando a música para dizer às pessoas o que eu acho que seja verdade. Eu estava a usando para perguntar, ‘Tem mais alguém querendo saber sobre isso?'”

O canal de maior significância para a mente curiosa de Tyler foi, claro, twenty one pilots — formada com dois de seus amigos, Nick Thomas e Chris Salih. Foi no álbum autointitulado lançado em 2009 onde versos como ‘Uma escrita mortal de música irá me ajudar a seguir em frente’, em Taxi-Cab, e, ‘Eu só estou aqui novamente como um viciado com uma caneta’, em Addict With A Pen, viram Tyler aberta e honestamente começar sua jornada ao atual espetáculo do qual ele faz parte agora.

Abordando a todos com assuntos que vão de fé até duvidar sobre si mesmo de forma frequentemente sutil, twenty one pilots (o álbum) talvez seja um dos melhores trabalhos já compostos por Tyler, dando ao garoto natural de Ohio um espaço para abordar questões as quais ele sentia que não conseguia discutir em sua vida cotidiana. “A primeira vez que mostrei aos meus pais uma música que eu compus, uma parte da letra falava sobre a dúvida que eu tinha quanto a quem eu era e o que acreditava,” ele disse, “Uma simples conversa com eles, eu pensava, era garantia de que eles me corrigiriam, me colocariam na linha ou se intrometeriam de uma forma que eu não esperava que eles fizessem. Mas quando eu mostrei a eles a música, eles sorriram e disseram que era ótima. E foi isso! Desde aquele momento eu me dei conta de que eu poderia usar a música daquela forma — para colocar algo pra fora.”

A magia da fórmula da escrita do twenty one pilots foi consolidada em 2011, quando Nick e Chris deixaram a banda, e Tyler ganhou um baterista dinâmico no lugar. Ambos foram criados em culturas bastante parecidas, e se tornaram amigos rapidamente mesmo com sua educação paralela. Cheio de confiança em seu novo parceiro de banda Josh (o qual tem como influência Eminem, Rancid, Metallica e tudo entre uma coisa e outra), e cheio de química musical natural, a escrita de Tyler e conceitos de composição se desenvolveram mais profundamente nos anos seguintes, abordando temas cada vez mais difíceis. Desde morte e depressão até sono (O uivo enfático em Ode to Sleep no verso que diz “Vou permanecer acordado / Porque a escuridão não fará prisioneiros esta noite” é um destaque), insegurança e saúde mental, as faixas que compõem ambos Regional At Best de 2011 e o Vessel de 2013 são revestidas de metáforas, porém dolorosamente honestas. Na super obscura Migraine, por exemplo, Tyler agonizantemente revela, “Por trás das minhas pálpebras existem ilhas de violência / Minha mente está naufragada…” antes de notar que, “Às vezes para permanecer vivo você tem que matar sua mente”, enquanto disfarçava sua crise interna pela simples ideia de dor de cabeça.

“Eu gosto de escrever músicas que soam felizes, mas que esperançosamente tentem dizer algo que mereça mais do que um simples momento feliz,” Tyler revelou, se referindo a um dos singles favoritos dos fãs, Guns For Hands — que é baseada na fã base inicial em Cincinnati, um grupo o qual o cantor viu como “um lugar cheio dessas crianças mutantes* com defeito no pulso”. “Eu olho para arte e música e escrita e composição e shows como momentos onde pessoas podem pegar as dificuldades pelas quais elas estão passando e se livras de tudo isso. Isso me ajudou bastante. Eu nunca escreveria sobre alguma coisa que eu não tivesse certeza de que me ajudaria, porque eu nunca iria querer falar sobre alguma coisa a qual eu não sentisse que fosse capaz de falar.”

Sobre faixas de destaque, como Holding On To You, diz Tyler, “é mais profundo do que o que eu normalmente consigo chegar”, enquanto Truce encoraja os fãs a “seguirem em frente”. Em Car Radio confessa, “Sou forçado a lidar com o que eu sinto / Não há distração que mascare o que e real”, e em Migraine reconhece que “há algo errado. Não sei exatamente o que é, mas tem algo de errado com o mundo, obviamente, certo? Realmente pergunta se alguém também sente isso. É um sentimento legal quando as pessoas me dizem que também se sentem dessa forma. Me faz pensar que não estamos sozinhos na luta contra o que lutamos.”

O tema dessas letras tem um papel mais amplo na arte do twenty one pilots também, com os avôs de Tyler e Josh no encarte do Vessel, representando nossos anos de declínio continuo, “Eu penso na ideia de envelhecer, na ideia de morrer,” Tyler declarou. “A morte não é apenas essa coisa da qual temos que parar de falar e meio que considerar estranha. Vai acontecer — por que temos tanto medo de falar sobre isso? Então, tenho que aceitar o fato inevitável de que vamos todos morrer e me dar conta de que eu tenho um corpo, tenho uma vida, tenho uma voz — isso é um receptáculo.”

Dados os temas difíceis que pesam nas mentes de Tyler e Josh ao longo de sua carreira, não é surpresa que o Blurryface de 2015 viu a dupla transformar seus medos e inseguranças em um conceito maior. E apesar de o twenty one pilots ter libertado o Blurryface somente no ano passado (com Tyler levando a noção um passo além, pintando seu pescoço e mãos de preto para dar a Blurryface uma personalidade mais presente), esse personagem esteve sempre presente no subconsciente de ambos os parceiros de banda.

“Comecei a ter ansiedade quando tinha 15 anos,” admitiu Josh para a K!, seguindo o lançamento do álbum. “Minha mente estava trabalhando demais — como se eu não pudesse colocar cada pensamento em seu devido lugar. Isso foi algo que eu não consegui superar por um bom tempo.”

Blurryface apenas realçou a mensagem do twenty one pilots. Apesar de a faixa de abertura do álbum, Heavydirtysoul, parecer meramente “apenas mais uma tentativa de fazer as vozes pararem”, ela também ouve Tyler admitir morbidamente que “a morte me inspira como um cão inspira um coelho”. Em outro lugar, a batida implacável de Not Today contém a letra, “Eu olho para fora e vejo um muito muito melhor / Sem minha presença nele tentando transformá-lo”, ao passo que humorosamente reconhece, “Eu sei que essa é uma contradição pelo fato de quão feliz [a música] soa / Mas a letra é tão triste.”

Assim como ataca de frente o desespero e o senso de que não se pode ser ajudado, o álbum também celebra o poder de cura contido na música, com Tyler afirmando, “Sei uma coisa ou duas sobre dor e escuridão / Se não fosse por essa música, não sei como teria lutado contra isso”, em Lane Boy.

Recentemente atingindo seu um milhão de vendas**, e elevando o twenty one pilots a arenas em ambos os lados do Atlântico, Josh acredita que parte do sucesso do Blurryface é o fato de que ele abrange uma aproximação destemida da composição. “Eu penso que é importante aprender com algumas dessas inseguranças e vulnerabilidades e apenas ser honesto sobre isso,” ele admite, “Acho que é isso que as pessoas querem ouvir.” Não sendo novidade para ninguém, devida honestidade se conectou com mais pessoas do que antes.

Com o twenty one pilots firme na estrada até metade do ano que vem (“Em resumo, nós vamos continuar firmes com a turnê até a metade do ano que vem, então em algum ponto nós vamos realmente precisar parar e mergulhar e começar a pensar em como o próximo álbum será,” Josh disse a Kerrang! recentemente), nós não temos como saber o que vem a seguir. Quais temas eles vão tratar o futuro? Talvez Tyler encontre essas “melhores palavras” as quais ele tanto anseia? Uma coisa é certa: o que quer que o twenty one pilots tenha a dizer a seguir, é melhor você estar ouvindo.


*Foi por conta da letra de Guns For Hands que o nome do nosso site, Mutant Kids, foi escolhido. Falamos mais sobre isso no nosso FAQ.

**Na data de publicação dessa tradução, em fevereiro, o álbum Blurryface já passou das 2 milhões de unidades vendidas e tornou-se Platina Dupla nos Estados Unidos. Leia mais sobre as conquistadas da banda na nossa página Charts.


O álbum Blurryface está à venda no Brasil nas lojas Saraiva, Americanas, Livraria Cultura e Submarino.

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