Tyler Joseph não vazou as próprias músicas

Esclarecemos os boatos de que Tyler vazou o álbum Blurryface, Heathens e o álbum Trench e por que vazamentos são ruins para os artistas

 escrito por Matheus Lopes
revisão de Kaline Linhares e Pâmela Muniz


No começo dessa madrugada (29), alguns fãs de twenty one pilots que vivem na Austrália compartilharam fotos do álbum Trench no Twitter, revelando a contracapa, a arte do CD e até o encarte com letras de músicas. Várias pessoas pelo mundo compartilharam as publicações. Por conta disso, começou um debate entre fãs de vários países entre o que é rumor, o que é lançamento e o que é vazamento.

Em 2015, quando o Blurryface vazou, e em 2016, quando Heathens vazou, nós da MKBR também ficamos com a dúvida: será que foi a própria banda? Por que eles lidariam com isso sem fazer pronunciamentos sérios? Na época nós noticiamos os acontecimentos dizendo que havia essa possibilidade, várias matérias nossas deixaram esse mistério sem solução. Com a experiência e tudo o que aprendemos nesses anos, decidimos escrever essa matéria para esclarecer e explicar por que não acreditamos mais que Josh e Tyler vazaram as músicas e por que não apoiamos essas publicações.


Muita coisa mudou na indústria da música com a era digital. Há alguns anos, com a facilidade para compartilhar arquivos na internet, os vazamentos se tornaram comuns. Acontece que as gravadoras precisam distribuir os CDs com antecedência para lojas de todo o mundo e quanto mais esperado um álbum é, mais cópias são distribuídas em mais países. As caixas vêm com um lacre indicando a data em que os itens devem ser colocados nas prateleiras, mas, infelizmente, muitas lojas não respeitam as datas ou dizem cometer erros de estoque.

Parece que foi isso que aconteceu na Austrália. Um dos fãs que estava presente na loja falou que os funcionários pediram desculpas pelo erro na hora da compra, já que os discos não deveriam estar à venda, mas mesmo assim venderam e pediram que eles não vazassem. Lojas que fazem isso estão cometendo uma infração e devem pagar uma multa, além de poderem ser processadas caso a gravadora decida fazer isso. Pessoas que se aproveitarem e compartilharem os arquivos online estão quebrando a lei de direitos autorais e podem até ter suas contas suspensas nas redes sociais, processadas ou presas, dependendo da legislação de onde vivem.

A lei de direitos autorais não vale apenas para áudios. Imagens e letras também são protegidas pela lei. Portanto, divulgar fotos e vídeos ou publicações em texto contendo esse tipo de mídia também não é certo. E não estamos falando de opinião, estamos falando de leis. Além de ilegal, isso também estraga a surpresa para fãs que estão aguardando o lançamento nas plataformas digitais ou a entrega de suas cópias físicas do CD. É um spoiler assim como quem posta sobre o que acabou de acontecer no episódio novo daquela série que todos assistem, mas que nem todos podem assistir à transmissão ao vivo.

Como portal de notícias sobre twenty one pilots, pedimos que os fãs não compartilhassem os vazamentos assim que soubemos do ocorrido. Também conversamos com páginas do Clique de vários países com as quais nós temos contato. Vários concordaram em não publicar nada. Os administradores da Austrália disseram que estavam recebendo até xingamentos de pessoas que estavam pedindo que os fãs australianos postassem logo as músicas online.

No momento em que escrevemos isso, já recebemos mensagens de algumas pessoas contando que viram publicações com áudios de algumas músicas do Trench. Alguns fãs teorizaram que isso podia fazer parte do conceito e que Josh e Tyler que vazaram o CD ou as músicas online. A verdade é que a gravadora está deletando as publicações, já adicionou filtros de direitos autorais para barrar os arquivos em vários sites e está enviando e-mails para quem violou a lei. Ninguém se pronunciou sobre alteração na data de lançamento de Trench e o CD não foi disponibilizado oficialmente em stream ou lojas. Pelo contrário, alguns fãs estão relatando terem recebido mensagens da gravadora pedindo para não compartilharem mais, pois a gravadora e a banda estão preocupadas com o vazamento.

Como noticiamos nas redes sociais e no site, a música “Levitate” ficou disponível nas plataformas Tidal e Deezer por alguns minutos e “My Blood” ficou disponível no iTunes por alguns instantes (vale lembrar também que os aparelhos Apple TV já anunciavam o lançamento de “My Blood” antes de qualquer outra plataforma, por isso já esperávamos que o lançamento acontecesse pela Apple). Em ambos os casos, a banda lançou as músicas poucas horas depois dos aparentes “vazamentos”. Apesar de não ter sido confirmado, acreditamos que isso tenha feito parte do planejamento da banda e da gravadora. Se não foi planejado, foi um erro ou vazamento desses sites. Achar que Tyler vazou diretamente essas músicas sem a permissão da gravadora é acreditar que Tyler tinha acesso ou hackeou o Tidal, a Deezer e o iTunes.

Ou seja, o que aconteceu dessa vez foi um vazamento, não um lançamento antecipado. E a história de que twenty one pilots vaza as próprias músicas não é um fato, é um rumor baseado em teorias e achismos. Explicamos melhor a seguir sobre outros vazamentos da banda e esclarecemos que não foram eles que postaram as músicas online antes e nem agora.


No Phun Intended

As gravações antigas de Tyler gravadas no porão de casa foram postadas na internet por fãs e amigos que tinham CDs antigos que ele mesmo gravava e distribuía na vizinhança. Até hoje ainda vemos casos de novas músicas da época sendo divulgadas por fãs na internet. Não é Tyler quem vaza as gravações antigas, são pessoas que têm acesso ao conteúdo. Como são canções antigas não disponíveis oficialmente de uma época em que ele era artista independente, diversas páginas compartilham o conteúdo sem receber avisos de infração de direitos autorais.


O caso Blurryface

A MKBR acompanhou toda a expectativa antes do lançamento do álbum. Como mostramos nesta matéria, no dia 11 de março de 2015 o site Kingdom Leaks vazou a capa do álbum e consequentemente o título. Algumas pessoas se baseiam em dois tweets de Tyler na época para dizer que foi ele quem vazou a capa e o álbum. O primeiro é esse: “é, a capa do álbum foi vazada há alguns dias e eu planejo vazar mais coisas amanhã”

Reparem que ele diz que a capa foi vazada, não que ele vazou a capa. Tyler não “vazou” nada no dia seguinte. O que aconteceu depois foi o lançamento oficial de Fairly Local (tweet), o anúncio dos títulos das músicas do álbum (tweet) e datas da turnê (tweet). Todos esses foram anúncios oficiais feitos com autorização e apoio da gravadora.

O segundo tweet que usam como justificativa é esse do dia 11 de maio: “vocês gostaram delas?” em referência às músicas, já que o álbum tinha sido vazado na internet. A conta @Blurryface usada pela banda como parte da divulgação do álbum também postou uma mensagem parecida que dizia “vocês as encontraram?”. Quem estava aqui na época lembra que o Twitter de Blurryface foi usado para se comunicar com fãs de forma enigmática sobre o que acontecia, mas isso não é uma confirmação de que a banda vazou o álbum. Em nenhum momento eles disseram isso.

Tyler postou vários tweets (este tweet e este) antes e depois dessa data reafirmando o dia 19 de maio, a data marcada para o lançamento oficial, como esse em que ele diz “vocês ainda vão estar comigo no dia 19? preciso contar com vocês nesse dia, amigos”. Ele literalmente pediu que as pessoas não esquecessem da data oficial para ouvir e comprar o álbum. Em nenhum momento ele diz ter vazado o álbum e ele mostra preocupação com a data original.


O caso Heathens

Outro argumento que usam é o de que como Tyler não se importa tanto com a indústria da música (como as críticas que ele faz em “Screen”, “Fairly Local” e “Lane Boy”), ele vaza as músicas sem se importar com a gravadora. Ele realmente pode não ser obcecado pela ideia de conquistar #1 nas rádios, mas é exagero achar que eles não se importam ou que isso não prejudica a gravadora.

Quando Blurryface vazou, o lançamento foi antecipado em alguns dias para tentar controlar danos. Quando uma pessoa vazou “Heathens” no Reddit, a gravadora começou uma briga na justiça para descobrir quem foi o responsável, como contamos nesta matéria e várias outras. No processo, eles deixaram claro que o vazamento atrapalhou não apenas o plano de marketing de “Heathens”, mas também do filme Esquadrão Suicida (Suicide Squad) e do CD com a trilha sonora, que ainda não estava no ciclo de divulgação.

A briga durou meses, causando tensão e mais gastos, e acabou em sigilo. Algumas pessoas quiseram acreditar que o sigilo significava que descobriram que quem vazou foi Tyler. Mas pensem bem. Por que um artista vazaria o próprio trabalho em qualidade de som inferior à original, atrapalhando os planos da gravadora e do estúdio do filme e arriscando o contrato dele, e deixaria a briga rolando por um bom tempo em vez de se manifestar e entrar em acordo logo?

Algumas pessoas defendem que foi ele sim porque a banda postou um código morse dizendo “take it slow” na época em que a música vazou. Mais uma vez, eles podem ter simplesmente se pronunciado sobre o vazamento de forma leve para evitar tensão. E é bom focar que a mensagem é o verso “take it slow”, “vão com calma”, o que também poderia ser um pedido para esperarem o lançamento oficial.

Também é importante lembrar que twenty one pilots não é mais uma banda indie desconhecida há muitos anos. Eles são um fenômeno mainstream que faz sucesso dos nichos alternativo, rock e pop. Uma informação oficial divulgada pelo site All Access: “My Blood” está programada para ser lançada nas rádios pop na terça-feira, dia 2. Uma teoria: existe a possibilidade de um vídeo ser lançado. Imaginem se o álbum vazasse neste fim de semana e a gravadora antecipasse o lançamento, como aconteceu com Blurryface. A atenção para “My Blood” sairia de foco, já que o público teria mais 10 novas canções para ouvir. Por isso esse tipo de planejamento importa sim.


Outros casos de vazamento na indústria

A decisão do que fazer diante de vazamentos varia de cada artista e gravadora. Quando o álbum Vulnicura da cantora Björk vazou, eles não processaram ninguém e também anteciparam o lançamento oficial. Quando o álbum Rebel Heart da Madonna vazou, a gravadora se dedicou nas investigações até encontrar e prender o responsável pelo vazamento. O rapper Drake já foi hackeado e um dos produtores de Lady Gaga teve o seu notebook roubado, ambos os casos terminaram com músicas sendo vazadas na internet e com processos judiciais no tribunal.

Achar que vazamentos são uma forma de “revolta contra o capitalismo” e que não afetam o artista não é desculpa. Para quem não sabe, a rapper Iggy Azalea gravou uma colaboração com Anitta chamada “Switch”. O vídeo não finalizado e o áudio foram vazados na internet bem antes do lançamento. Iggy já vinha enfrentando problemas sérios de depressão e ansiedade e acabou desistindo da divulgação do single e do álbum, que foi simplesmente cancelado.

É quase impossível impedir que um álbum vaze hoje em dia, a menos que o lançamento aconteça apenas nas plataformas digitais e todo o planejamento corra em segredo. O que você faz com os arquivos quando os encontra é decisão sua. Todos são livres para decidir se vão ouvir ou não. Mas se você decide compartilhar com outras pessoas, você está cometendo um ato ilegal. E, como falamos, isso não é questão de opinião, é lei.

Lembrem-se que se pronunciar sobre as coisas de forma leve não significa culpa ou concordância com os atos ilegais, é apenas uma resposta não agressiva para evitar constrangimento e lidar com os acontecimentos. No fim, artistas ficam felizes com a recepção dos fãs, mas se as datas não importassem não existiria planejamento de campanha.

Vamos esperar até meia-noite do dia 5 para ouvir juntos como a banda espera?


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