Escolhendo a vida: twenty one pilots evita o brilho das “lápides neon”

tradução de Rebeca Hikari
revisão de Sheryda Linhares

Além de explicar como sua fé abalada inspirou a música “Leave The City”, twenty one pilots discutiu uma das músicas mais controversas de sua carreira, “Neon Gravestones”, com a Alternative Press. Confira a tradução abaixo.


Olhamos mais de perto a música controversa de Trench, o álbum recentemente lançado do twenty one pilots, na qual nos traz pensamentos complexos e soluções relacionados ao suicídio.

No planejamento de nossas rotinas diárias — antes de dar uma olhada nas suas menções no Twitter, verificar no jornal se o mundo realmente acabou, talvez só fazer seu pedido do café da manhã —, será que nós paramos para refletir sobre como chegamos aqui? Consideramos quantas gerações de seres humanos foram necessárias para anunciar nossa chegada nesta grande bola azul? Conseguimos descobrir exatamente quanta luta, dificuldade e coragem estavam envolvidas para te trazer até onde você está hoje?

O coração e alma do fundador do twenty one pilots, Tyler Joseph, está sempre mergulhando fundo no existencialismo quando se trata de assuntos internos, do desconhecido e o que vem em seguida. No recentemente lançado Trench, a banda mantém seu modus operandi (leia-se: “nunca vamos ‘não falar de tal coisa’”), ao escrever uma das músicas mais polêmicas de sua carreira, “Neon Gravestones”.

“Houve um minuto, quando eu mostrei [a música] para ele e disse: ‘Bom, o que você acha?’” Joseph diz, quando apresentou a música ao seu musical foil¹/melhor amigo, Josh Dun. Quando Joseph estava preocupado com a reação à faixa “Lane Boy”, do álbum Blurryface, (onde ele levava a indústria da música a termos incertos), foi Dun quem aprovou a ideia.

“Não é uma música que você escuta uma vez e diz ‘Ok, é nisso que ela quer chegar.’ É algo com o qual você tem que viver por um momento, conversar sobre e discutir com outras pessoas — dar a ela oxigênio e deixá-la respirar.”

“Então enquanto ela descansava no cérebro do Josh, eu esperava um retorno dele. No fim das contas, se ele dissesse ‘Isso não está soando correto’ ou ‘Eu acho que nós deveríamos nos preocupar sobre isso não ser interpretado corretamente’, eu saberia que era o fim. Ele digeri-la e voltar e dizer ‘Eu entendo o que está por trás disso’ é o que eu precisava ouvir.”

“Eu acho que nós sempre concordamos um com o outro sobre muitos assuntos diferentes”, diz Dun, quando perguntado sobre o que ele achava quando Joseph mostrou a letra para ele. “De coisas políticas à coisas espirituais. É por isso que eu acho que nós nos demos bem logo de cara. Como o Tyler diz, pode haver sensibilidade dentro desse tipo de coisa, então eu quero achar um equilíbrio entre algo que não é muito sensível, mas não extremo demais. [A música] é algo que eu digeri por um tempo, mas eu acho que ela é de um tipo ousado — e eu gosto disso”.

A música é uma meditação sobre aquelas pessoas que escolhem acabar com as suas vidas usando suas próprias mãos. Enquanto a dupla é conhecida pela sua habilidade de expressar fortes platitudes emocionais em perfeitos ganchos pop, eles nunca foram tão sombrios assim.

A reação dos ouvintes pode ser espontânea em acusar Joseph de ser excessivamente insensível às histórias das vítimas (o rap hipotético com versos como “Chorarei por uma criança/Mas não lamentarei por um rei” e “Eu não estou desrespeitando o que foi deixado para trás/Apenas implorando para que não seja glorificado”) e as circunstâncias que os levaram a essas tristes e trágicas conclusões. Outros podem considerar que ele está transmitindo algo com relação a soluções.

“A ideia de auto-mutilação, depressão, suicídio”, ele começa, “eu gostaria de acreditar que há diversas maneiras de abordá-la e falar sobre ela. Este ângulo do qual ‘Neon Gravestones’ está falando é um que eu não ouvi muito e gostaria, pois sei que o respondo como um desafio”.

“Eu acho que em algum ponto, ‘Nós te ouvimos e te entendemos e estamos aqui para você’…”, a voz dele trava, “Chega um ponto em que isso não ajuda. E qual é o oposto disso? É um desafio para dar um passo à frente e derrotar algo. Para ganhar.”

Joseph cita sua vida crescendo perto de seus pais, que eram treinadores de basquete em várias escolas. Ele diz que enquanto há maneiras de aconselhar e empoderar pessoas em certos grupos de idades específicas, “mas mesmo assim, você não pode resumir a ‘você deveria treinar alunos de ensino fundamental dessa maneira e alunos de ensino médio dessa maneira e atletas universitários dessa maneira.’”

“Cada pessoa responde a certas coisas de certas maneiras”, ele continua, “Dentro disso, é a realização que há um desafio e tentar chegar neste ponto. Comigo e algumas outras pessoas, nós respondemos a isso. Quando você percebe ‘Eu reajo positivamente a essa chamada para ação também’, então de um jeito diferente, você percebe que não está sozinho. Mas você não precisou de mim para dizer ‘Ei, você não está sozinho.’ Você descobriu de um jeito mais orgânico.”

No final da música, Joseph sugere que passe algum tempo conversando com pessoas que são mais velhas que você. Escute as histórias deles de sobrevivência e amor pela vida, na esperança de conseguir algumas respostas. (“Encontre seus avós ou alguém de idade/Mostre respeito pelo caminho que eles trilharam/À vida eles eram dedicados/Isso deve ser celebrado”). Até hoje, o cantor encontra consolo e poder na capa do álbum de estreia na gravadora, Vessel, onde tanto o avô de Dun e o seu — que faleceu recentemente — representam a promessa de uma vida plena.

“Esses são dois caras para quem nós olhamos para ver a todo o percurso da vida”, diz Joseph. “E esse é o tipo de coisa que eu vejo como motivadora e encorajadora. É algo para o qual eu olho como inspiração naqueles momentos onde eu não quero seguir em frente ou se eu não acho que eu consigo.”

“Espero que as pessoas saibam o que eu estou tentando dizer”, ele diz. “Porque isso é potencialmente doloroso, potencialmente prejudicial, potencialmente ofensivo, potencialmente…” ele pausa para organizar seus pensamentos. “Eu estou cantando o que eu gostaria de ouvir e o que eu preciso ouvir. E eu sinto que há um grupo de pessoas como eu que vão reagir a um desafio e vão reagir com um pouco de conflito e uma mentalidade de vitória/derrota. Eu sei que se alguém me desafiasse com isso, eu ficaria por trás. Eu ficaria inspirado e animado por isso — e essa abordagem me ajudaria.”

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¹Nesse sentido, “foil” é um substantivo para contrastar os dois integrantes da banda.


Tem vontade ou necessidade de conversar com alguém? Entre em contato com o CVV, Centro de Valorização da Vida, através do site https://www.cvv.org.br/ ou ligue para 188.


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