Fé abalada de twenty one pilots resulta em “Leave The City”

Publicado por Kaline Linhares - Arquivada em 2018

tradução de Rodolfo Silva
revisão de Kaline Linhares

Conversando com Jason Pettigrew, da Alternative Press, twenty one pilots falou sobre o processo de composição da música “Leave The City”, a última do álbum Trench, e como sua fé a influenciou. Confira a tradução da matéria abaixo.


Jamais satisfeito com suas conquistas, o gênio de twenty one pilots, Tyler Joseph, pondera sobre a existência de uma força maior na faixa de encerramento dolorosamente melancólica do novo álbum, Trench.

Cinco álbuns e você pensaria que Tyler Joseph, do twenty one pilots, teria entrado em um ritmo confortável agora. Você sabe, relaxar e colher as recompensas de todo o trabalho duro dele e de Josh Dun. Gastar um pouco de dinheiro. Dormir até às 15h. E quando ele entrar em seu estúdio, talvez possa aliviar e escrever músicas sobre como é difícil estar em uma banda de sucesso.

É claro que qualquer um que esteja prestando atenção sabe que a arte de Joseph é alimentada por sua busca psíquica por respostas, razões e possibilidades sobre as dificuldades da vida moderna. Era só uma questão de tempo até que Joseph se aprofundasse em sua psique, examinando a essência de sua vida.

“Leave The City”, a faixa final do recém-lançado álbum Trench, conecta a história do cantor ao seu sistema de crenças cristãs de uma forma solene e comovente. Embalando a devastação emocional de uma canção de ninar cantada em um país devastado pela guerra e a deliberação de reconstruir uma vida após um trauma irreversível, a música coloca muitas das questões de Joseph sobre Deus, existencialismo e seu lugar no universo para todos verem e… sentirem. Não há uma música na obra de TØP que penetre no coração de um ouvinte do jeito que “Leave The City” faz.

“Eu realmente achei que era uma ótima maneira de fechar o álbum”, diz ele. “Uma vez que comecei a criar [a música], sabia que não iria nomear o lugar ao qual estou indo: estou falando sobre o mundo de onde sou; Estou falando sobre o mundo pelo qual estou passando, mas eu nunca realmente chego ao lugar que estou tentando alcançar. Não é porque eu estou guardando algum segredo: você está olhando para alguém que ainda está tentando descobrir onde é esse lugar.”

“[A música é] definitivamente sobre perder a fé, algo que eu passei enquanto escrevia esse álbum”, Tyler explica. “É algo que pode ter mudado muito para mim durante o último disco e turnê. É como se Trench estivesse dizendo que eu encontrei o sentido do porquê estava lá. Mas, na verdade, está dizendo, ‘Pessoal, eu sei onde é, sigam-me.’ e você virá ao nosso show e eu falarei sobre isso? Eu ainda não tenho essa resposta. Mas no final da música, eu canto: ‘Esses rostos estão virados para mim, eles sabem o que quero dizer.’ Isso sou eu no palco, olhando para eles, talvez — pelo menos no álbum — este era o lugar onde eu estava tentando chegar esse tempo todo.”

“Eu ainda acho que vou responder essa pergunta, e vou saber. E quando eu tiver certeza… qual é o objetivo final? Para onde eu vou? Existe céu? Existe inferno? Existe um Deus? E o processo de fazer este álbum é o mais perto que eu já cheguei…” ele faz uma pausa por um breve momento. “De entreter um mundo onde não existe um Deus. E isso é transparência total. E isso é difícil de dizer. É uma nova luta para mim. Mas eu realmente quero assumir isso.”

O diálogo interno de Joseph sobre assuntos de crença não é tão controverso quanto, digamos, aqueles pertencentes a alguns membros da Underoath, cujas experiências pessoais mudaram seus pontos de vista espirituais. Há estudiosos e seguidores que admitem abertamente que às vezes é necessária uma crise de fé para reexaminar seu relacionamento com um poder superior. Mas a “raison d’etre” (razão de ser, em francês) de Joseph nunca foi servida em gestos comuns. O que faz “Leave The City” ainda mais pungente.

“Eu ainda acredito em Deus”, ele reconhece. “Ainda quero me chamar de cristão — porque eu sou cristão. Eu não sei como falar com as pessoas sobre isso ainda. E se eu não consigo falar com outras pessoas sobre isso ou se eu não sei exatamente por que eu deveria falar com outras pessoas sobre isso, será que isso realmente significa alguma coisa para mim, então? Se eu não tenho verdadeiramente a resposta, eu não deveria estar somente falando sobre isso? Mas eu tenho que chegar lá primeiro.”

Como Joseph construiu uma carreira de articulação eloquente — em oposição ao choque e à transgressão —, tanto sua declaração de fé quanto as falhas notáveis ao falar sobre isso soa como uma busca por conhecimento e compreensão. O clássico de 1964 de Bob Dylan, “With God On Our Side”, discute como as culturas reivindicam exclusividade para um poder superior para tornar a guerra algo racional. De qualquer forma, Tyler Joseph não toma partidos. Ele está se perguntando se há uma divindade para reivindicar em primeiro lugar.

“É uma parte completamente necessária ao tornar isso minha fé”, continua ele. “Mas eu não consigo ver totalmente — é apenas uma parada ao longo do caminho. Porque, nos dias em que eu não penso em Deus, eu estou bem. Não é como se coisas sobrenaturais estivessem acontecendo a todo momento, e eu penso ‘Bem, eu não consigo descrever isso sem dizer “É Deus”‘, e isso não aconteceu em todo o ciclo do álbum. Nós apenas nos levantamos, trabalhamos, criamos e seguimos em frente.”

Embora os compositores possam refletir sobre uma miríade de pensamentos, histórias, decretos e manifestos por meio de sua arte, é preciso uma alma paciente para processar possibilidades que tenham a propensão de negar valores anteriormente mantidos. Isso não é algo que Joseph deixará de perseguir em algum momento, independentemente de quaisquer subprodutos de sucesso com os quais ele interaja. Como ele canta: “Com o tempo, vou deixar a cidade / Por enquanto, vou ficar vivo”.

“Vendo o sucesso em Blurryface: Isso é algo que mudou em mim?” Ele se pergunta em voz alta. “Eu não posso ver isso como uma parada, porque eu tenho que acreditar plenamente que eu tinha que ficar lá. Mas quando eu tiver morado aqui por mais tempo, quando eu sair de Trench e chegar aonde estou indo e eu souber o nome desse lugar, eu me pergunto se vou ser mais ousado na minha fé e no nosso propósito de estar aqui.”

O último álbum do twenty one pilots, Trench, está disponível agora e eles já estão na estrada para a Bandito Tour neste mês. O duo também aparece na AP 362, saiba como comprar aqui.


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Comunicado

Por decisão unânime, a equipe da Mutant Kids Brasil decidiu dar uma pausa indeterminada nas atividades do portal.

No dia 02 de setembro de 2020, Tyler Joseph demonstrou indiferença a causas sociais que são importantes para nós e por isso não nos sentimos mais confortáveis em continuar o nosso trabalho de cobrir a banda twenty one pilots.

Depois de meses recebendo mensagens de fãs pedindo que ele se posicionasse em suas plataformas digitais em relação a tópicos importantes, como o movimento Vidas Negras Importam nos EUA e a crescente onda de homofobia na Europa, Tyler publicou uma foto usando tênis de plataforma (salto) como piada, dizendo que estava sim usando sua plataforma.

Horas depois de causar controvérsia, ele começou a falar sobre saúde mental, dizendo que é essa a sua causa, e que ele já carrega peso demais, mas que admira quem batalha por outras causas.

Não é a primeira vez que ele diz algo assim. Em 2016, quando o casamento homoafetivo foi enfim legalizado nos EUA (país onde Tyler mora), ele ficou em silêncio. Ao ser perguntado sobre o que ele achava, Tyler publicou uma mensagem dizendo que não havia postado sobre isso porque "qualquer outra causa, não importa o quão nobre seja, torna-se um peso grande demais para carregar". Ele pediu paciência até que um dia ele "consiga carregar mais peso".

Isso nos leva a concluir que Tyler ainda não aprendeu a carregar o "peso" que nós somos, 4 anos depois. Não sabemos se faz sentido dedicar nosso tempo e energia a alguém que nos enxerga desta forma. A impressão que temos é que as nossas batalhas não são as mesmas, como ele dizia. E isso nos magoa.

Não achamos que todas as celebridades são obrigadas a se posicionar sobre tudo. Mas acreditamos que as pautas sobre identidade estão diretamente ligadas à saúde mental, base sobre a qual a banda construiu sua carreira. Tyler mencionou dados sobre depressão e suicídio, por exemplo, mas ele não olha mais fundo na questão. Há diversos estudos que relacionam esses males ao preconceito que pessoas negras e LGBTQ+ sofrem. É preciso enxergar os fãs.

Não estamos publicando esse texto como uma tentativa de convencer vocês a pensarem como nós. Assim como muitos defendem a opção de Tyler de não se pronunciar, esperamos que entendam a nossa perspectiva. Nossa equipe é e sempre foi diversa, com contribuição de pessoas de diferentes estados, grupos sociais, gêneros, sexualidade, religião e posicionamento político. Infelizmente, não nos sentimentos tão acolhidos pela banda como antigamente, e assim como diversos outros portais pelo mundo estamos tomando essa decisão.

O site, as redes sociais e o canal no YouTube continuarão no ar para quem quiser conferir o conteúdo que publicamos sobre a banda desde 2014.

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