twenty one pilots na Kerrang! Magazine: O retorno do ano

Publicado por Kaline Linhares - Arquivada em 2018

Tradução de Danielle Fortes,
Isabelle Knupp e Rodolfo Silva
Revisão de Kaline Linhares

twenty one pilots deu muitos detalhes sobre seu hiato de mais de um ano e o surgimento do mundo que hoje conhecemos como Trench para a Kerrang! Magazine, uma revista britânica que é lançada semanalmente. Confira abaixo a tradução da edição K!1742 de 6 de outubro de 2018. Em breve postaremos a edição da semana seguinte a essa, onde a banda se abriu ainda mais sobre o processo criativo de Trench.

“Tyler e Josh compartilham um pouco de nervosismo e excitação pré-show.”


ACIMA DO TØPO

Depois do que pareceu ser uma eternidade, twenty one pilots está de volta. Convidando a K! ao seu santuário interno para discutir os mínimos detalhes de Trench, Tyler Joseph e Josh Dun revelam como e o porquê de ser seu lançamento mais ambicioso e importante até o momento.

Texto: Emily Carter | Fotos: Adam Elmakias

No verão passado, Tyler Joseph ligou para Josh Dun com um tópico incomum para discutir. Foi alguns dias após a banda ter encerrado a sua espetacular Tour de Columbus, de cinco noites, os últimos shows do ciclo de turnês do álbum Blurryface, de 2015. Tyler havia subsequentemente ido passar férias na praia com a família, mas não conseguiu resistir a ligar para seu melhor amigo para contar o que estava pensando.

Josh ouvia enquanto o amigo de 29 anos detalhava Trench: um mundo onde nove bispos ditatoriais impediam os habitantes (Tyler incluso) de um lugar fictício chamado Dema de escapar de suas garras controladoras, com a ajuda dos Banditos — uma organização rebelde (apresentando Josh). Essa narrativa vasta porém complexa, Tyler explicou, se tornaria o próximo álbum da banda. Josh absorveu esse bombardeio de informações de pensou, “No que você se meteu?!”

“Foi como se ele tivesse comido uma fruta estragada ou algo assim,” o baterista brinca com a Kerrang! hoje, enquanto seus companheiro de banda tem uma explosão de risos ao seu lado. “Como se ele estivesse super chapado…”

Verdade seja dita, Tyler estava secretamente criando o enredo de Trench desde anos antes de suas férias. Agora finalmente havia chegado a hora de introduzi-lo ao mundo. E apesar de Josh ter ficado inicialmente chocado com o conceito, não demorou muito para que ele estivesse de acordo.

A primeira vez que a K! conversou com twenty one pilots para descobrir mais sobre sua aventura mais ambiciosa até o momento, os dois não estão agindo exatamente como eles mesmos. Tem uma tensão visível em seus corpos; um senso de apreensão em seus olhos. São duas horas antes da hora do seu show de retorno altamente antecipado na O2 Academy Brixton em Londres — o primeiro show deles em 444 dias — e eles simplesmente não conseguem relaxar.

Em qualquer outro dia, o par geralmente seria ouvido terminando as frases um do outro, rindo de piadas internas, e de forma geral fazendo os aspectos mais mundanos de estar numa banda parecer tão divertido quanto tocar num palco. Mas não hoje. Vestido de preto, exceto por uma touca azul escuro cobrindo seu cabelo recém raspado, Josh é ligeiramente o mais calmo dos dois, passando o tempo longe do ensaio de fotos da K! conversando com sua namorada, Debby. Mas Tyler, vestindo uma jaqueta amarela brilhante apesar do seu humor solene, não parece conseguir se livrar da expressão ansiosa em seu rosto. O ar está parado. Entre poses, ele permanece em silêncio.

Tyler gentilmente se arrasta até uma das janelas do andar de cima do local, dando uma olhada nas centenas de fãs que estão na fila abaixo, todos cobertos da cabeça aos pés em trajes verde escuro e fitas amarelas. É a marca da era Trench.

A sua face momentaneamente se abre em um sorriso enorme, de orelha a orelha. Mas então ele vira de costas para a cena e o nervosismo recomeça.

Dois dias depois, nós encontramos twenty one pilots novamente — dessa vez em um dos hotéis mais luxuosos do centro de Londres. As suas preocupações deram lugar a pura euforia após o triunfo do show. Mesmo assim, Kerrang! menciona o nervosismo pré-show pungente de Tyler.

“Você provavelmente notou um momento muito importante para mim, que foi, ‘Isso é real,’” ele acena, aquele mesmo sorriso aparecendo novamente. “Os fãs aceitaram isso — essa nova ideia e essa nova era. Você só não sabe…”

“Nós somos caras bem inseguros,” Josh ri em concordância, espalhado confortavelmente ao lado de seu companheiro de banda, meio sentado e meio deitado no sofá bege. “Tirando um pouco mais de um ano de férias, você tem esperança de que as pessoas ainda estarão lá. Mas eu acho que não era real, para mim, até nós subirmos no palco. Foi impressionante, realmente. Foi uma sensação boa saber que eles nos apoiam.”

Isso pode soar como falsa modéstia de qualquer outra banda, dado ao maremoto de sucesso que precedeu Trench. Mas isso é twenty one pilots…

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Para se colocar no estado mental para escrever a continuação de Blurryface — o lançamento de maior sucesso de suas carreiras até aquele momento — twenty one pilots primeiro teve que procurar por um pouco de perspectiva. Um dia, Tyler Joseph fortuitamente encontrou a perspectiva que estava desejando de uma fonte inesperada.

“Uma das minhas tias-avós disse para mim, ‘Bem, eu sei que você ouviu que o hospital fechou, então tem sido uma transição difícil,’ ele lembra.

“Eu sabia que ela trabalhava no hospital, mas eu não sabia que eles estavam fechando. Mas no mundo dela, essa era a número um na lista de coisas mais importantes para ela. E essa compreensão me inspirou tanto — que todos nós temos a nossa realidade que sentimos ser a coisa mais importante de todas. Ela trabalhou lá por anos e anos, e mergulhar no mundo dela e aprender com a perspectiva dela, foi tão revigorante. E mais para o fim do ciclo do Blurryface, realmente parecia que o mundo tinha passado a girar em torno do que nós estávamos fazendo, e isso não parecia exatamente certo…”

Tyler não está errado. O seu quarto álbum não só catapultou a banda para os maiores palcos do mundo, ele também fez história como o primeiro álbum do todos os tempos a ter todas as músicas certificadas (com pelo menos) Ouro — o equivalente a um milhão de vendas. Enquanto faziam as manchetes diariamente, não é uma surpresa que twenty one pilots se sentia um pouco apreensivo com a situação.

Com mais olhos neles do que jamais antes, Tyler e Josh também se encontraram batalhando contra uma constante corrente de insegurança. Dado que Blurryface explora esses tópicos através do personagem de mesmo nome, isso não é minimamente surpreendente. Ainda assim, apesar do florescimento de seu número de fãs e da lista sem fim de conquistas, o par logo aprendeu que fama e fortuna simplesmente não é uma cura.

“Tem certas coisas que você lida e tenta resolver, como humano,” explica Tyler. “Obviamente, tem coisas que são como, ‘Somos bons o suficiente para viver de música? Somos bons o suficiente para escrever músicas e mostrar para as pessoas do quê somos feitos?’ Conforme as coisas ficaram maiores, tinha alguma confiança implantada em nós — como, ‘Quer saber? Na verdade conseguimos fazer isso…’ Mas tem também muitos aspectos de dúvida e insegurança que o nível de sucesso não chega a afetar. E, particularmente, eu fico contente, porque eu não necessariamente quero uma recompensa externa para resolver algum tipo de problema interno. Eu acho que Josh e eu vamos aceitar todas as fases com um pouco de necessidade de superar algo, ou querer trabalhar para resolver algo. Nós nunca queremos nos sentir completamente confortáveis; nós queremos que as pessoas nos vejam tentando resolver algo, e termos dificuldades, e ver um pouco desse turbilhão e caos.”

Vocês alguma vez já correram o risco de agir no modo piloto automático no palco?

“Hmm…” Tyler faz uma pausa. “Eu diria que tinha um aspecto mais para o fim do ciclo de turnê do Blurryface onde nós começamos a sentir que já sabíamos o que esperar de cada show. E nós não gostamos disso. Nós não queremos tomar o palco pensando, ‘Eu sei exatamente o que vai acontecer essa noite.’ Assim que essa ficha foi caindo, realmente começou a fazer sentido que nós deveríamos finalizar tudo e nos jogar na criação de novas músicas.”

E foi isso que eles fizeram. Depois de postar mensagens enigmáticas e GIFs de um olho se fechando no perfil da banda no Twitter no início de julho de 2017, twenty one pilots mergulhou no quinto álbum do jeito mais extremo possível: desligando-se das redes sociais e ficando fora de vista por um ano inteiro. Tyler não pôde ser encontrado nesses 365 dias. Josh era ocasionalmente visto saindo — correndo uma meia maratona em Columbus aqui, indo a um jantar de caridade da gravadora Fueled By Ramen lá. Mas mesmo assim, essas aparências públicas eram esporádicas, e não houve uma menção sequer ao que estava acontecendo nos bastidores.

Em um nível puramente prático, como foi esse período de tempo?

“Eu sou bem sortudo por não ter precisado sair muito de casa”, Tyler sorri. “Você entra em situações estranhas onde se pergunta como irá sair delas: ‘Eu realmente não quero ir e fazer isso’, ou, ‘Eu não quero estar perto dessas pessoas’. Nesse ano o Josh talvez tenha se pego dizendo ‘Ok’, enquanto eu me apeguei às minhas armas e disse, ‘Não, não, não, nada!’. Provavelmente ofendeu certas pessoas ou pareceu errado naquele momento, mas tenho sorte que eles não conseguiram documentar isso (risos). Josh e eu somos meio caseiros — mas acho que comigo é um pouco mais exagerado, às vezes.”

No caso particular dele, entretanto, sua natureza mais apegada ao lar caiu bem. Na verdade, Tyler ainda fez de Trench a atração principal do seu espaço, construindo um estúdio no seu porão em Columbus. Enquanto Josh dividia seu tempo estando aqui e em sua nova casa em LA, Tyler fez grandes progressos e se responsabilizou pelo projeto quase inteiramente sozinho. Sua única opinião “adicional” — fora do próprio twenty one pilots — veio do cantor/guitarrista Paul Meany, do Mutemath, que serviu como uma espécie de co-produtor.

“Ainda há vários aspectos da gravação que estou aprendendo — como alguém que nunca produziu um álbum inteiramente sozinho”, Tyler explica a sua experiência mais pessoal até o momento. “Especialmente quando se trata de gravar bateria ao vivo e coletar áudio, editar e organizar isso. Por mais que eu estivesse tentando balancear essas coisas, Paul me ajudou a organizar esse lado do álbum. Ele era a única outra pessoa que estava vendo as coisas do princípio.”

Dado que Blurryface foi escrito majoritariamente enquanto twenty one pilots estavam viajando, o processo de Trench foi uma experiência totalmente nova para ambos os membros da banda.

Faz você se perguntar como Josh se sentiu sobre tudo isso. Quando seu amigo estava escondido em seu estúdio em Columbus, o baterista estava em LA, experimentando o processo remotamente.

“De certa forma, era estranho não estar lá”, Josh considera. “Mas também havia um elemento interessante em estar um pouco distante. Porque, às vezes, estar tão perto de algo…”

“…Você perde a perspectiva.”, declara Tyler, “E Josh realmente ganhou essa habilidade de olhar para algo de um modo totalmente novo. Era extremamente valioso contar ideias sobre músicas para ele, se estivesse sem uma proximidade daquela criação por um tempo. Apenas jogar uma ideia para Josh na sua forma mais crua em qualquer hora tem sido a estratégia mais efetiva — ele estar dando sua opinião tem sido uma excelente ferramenta para mim, já que estou saindo de um coma criativo!”

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Uma noite, durante a criação de Trench, Tyler acordou no meio da noite e começou a criticar a si mesmo. Apenas horas depois, pediram a ele que enviassem a tracklist final do álbum. O processo de produção da edição física estava prestes a começar.

“Tyler, você tem certeza de que essa será a ordem?” perguntaram a ele.

“Sim, essa é a ordem,” o musicista respondeu.

“Está bem, não tem mais volta agora…”.

Considerando o tamanho do nível de importância e consideração artística que Tyler tem, Trench foi, com certeza, como deveria ter sido. Mas havia uma música em particular que ele acabou pensando duas vezes.

“Eu estava pensando, ‘Neon Gravestones, será que está no ponto certo?’”, sussurra Tyler, recontando suas emoções na escuridão. Ele ligou as luzes, levantou e olhou a tracklist novamente, ouvindo as músicas ao mesmo tempo.

“Eu tive esse momento meio, ‘Você tem que merecer. Você tem que merecer ser a sétima, bem no meio. É onde deveria estar…’” ele relembra. “Haviam opiniões de fora que ouviram essas músicas e estavam dizendo, ‘Isso pode ser um problema, tê-la bem no meio do álbum; pode potencialmente arruinar com a ideia de fluxo de qualquer pessoa.’ Mas eu apenas sentia que era muito importante que estivesse ali.”

“Neon Gravestones”, Tyler explica orgulhosamente, é o coração de Trench. Em um álbum que é cercado por trechos de rap de alta qualidade (“Levitate”), toques explosivos do baixo (“Jumpsuit”), melodias gloriosamente cativantes (“Chlorine”), e um novo senso de produção “corajosa” (“Pet Cheetah”), seu impacto vem da movimentação de segmentos de palavras faladas e sutilezas requintadas. Mas ainda mais importante é a sua poderosa mensagem contra o suicídio.

“Há certos momentos, que não acontecem com muita frequência — pelo menos para mim como compositor — onde é como, ‘Este é um momento em que eu preciso ser o mais claro possível’, diz Tyler. “Eu tinha muitas coisas que me incomodando que queria botar para fora, e acho que — sem querer julgar o passado — é difícil dizer ‘suicídio’. É difícil falar sobre suicídio… “

twenty one pilots já abordou questões pesadas em suas músicas — desde as letras metafóricas (“Guns For Hands”, “Holding On To You”), até as mais literais como “Ride”: “É, eu penso demais sobre o final/Mas é divertido fantasiar.” Mas Tyler nunca foi tão direto antes.

Então, o que fez agora a hora de fazer uma música como essa?

“Eu definitivamente acho que foi uma reação ao que estava acontecendo em nossa cultura”, ele reconhece. “Eu acho que não deveria passar despercebido que eu também estou muito… assim… orgulhoso de nossa cultura, naquela música, também. E eu ainda estou. Estou orgulhoso dos avanços que fizemos, em falar sobre isso e abordar isso. Este tem sido um tema de nossas composições já há algum tempo e eu sempre me senti um pouco sozinho nisso. E agora não tanto, o que é uma coisa boa. Mas, ao mesmo tempo, me senti inclinado a trazer uma nova perspectiva — uma perspectiva que soa um pouco mais agressiva e mais um desafio. Mas, eu sabia, se houvesse pessoas como eu, nós respondemos a esse desafio de forma positiva. Em última análise, é isso que eu estava tentando fazer.”

Durante o início de criação de “Neon Gravestones”, Tyler admite, seu colega de banda estava preocupado com a sensibilidade da música. “Quando eu comecei a escrevê-la, você queria ter certeza de que estava passando a mensagem corretamente,” diz ele, voltando-se para Josh. “E isso, por si só, me alertou muito sobre a importância do tópico sobre o qual eu estava falando. Quando Josh disse: ‘Sim, isso parece certo, eu posso apoiar isso’, naquele momento eu soube, ‘Agora isso pode ir adiante.'”

Se você está procurando respostas para as muitas perguntas que Trench faz, “Neon Gravestones” é um dos melhores lugares para começar. Não que o próprio Tyler queira entregar tudo. Como sempre, a interpretação é deixada para o ouvinte.

“Eu poderia ir até o fim e responder todas as perguntas,” ele diz. “Eu ainda não quero fazer isso, mas ‘Neon Gravestones’ é uma visão sobre as razões mais profundas do que está acontecendo em Dema que faz parecer que eu tenha que sair de lá.”

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O processo do compositor é delicado para Tyler Joseph — sempre foi. Com Trench, porém, o vocalista levou o conceito de se perder em sua música — e em sua própria cabeça — para um nível totalmente novo.

E não só o álbum aplica uma teoria de olhar a mente geograficamente (“Você começa a perceber que há um pouco de mapa…”, pondera Tyler), as ideias por trás do ponto de referência central de Trench, Dema, também pertencem ao que twenty one pilots estava passando no momento da formação do álbum: uma fase de transição entre os ciclos.

“Em última análise,” Tyler começa, “é a história das emoções que se sentiria quando você está entre dois lugares. E isso pode se aplicar à vida de muitas pessoas — estar entre empregos, escolas ou temporadas. E eu acho que Trench representa esse sentimento entre dois lugares. Essa é a maneira mais ampla de olhar para Trench. Mas, à medida que você aumenta o zoom, isso pode significar muitas outras coisas também.”

Musicalmente, Trench precisou de uma abordagem similarmente analítica, sem mencionar uma igualmente cativante interpretação sobre a mistura de gêneros musicais de twenty one pilots para acompanhar a grande visão do álbum.

“Nada me pareceu ser errado”, afirma Josh, quando perguntado se ele discordava de para onde Tyler queria levar as coisas. “Eu acho que ele flutua para um bom e interessante gosto musical — e é por isso que eu queria tocar música com ele em primeiro lugar (risos).”

Josh aprovou o que ele estava ouvindo, mas Tyler nunca parou de analisar. Embora ele não tenha estabelecido um horário enquanto estava em seu estúdio no porão, o tempo voava quando o vocalista decifrava um novo arranjo musical, até que ele “interrompia isso e percebia: ‘Oh, eu estive aqui por 10 horas.'” Tyler fala apaixonadamente das “centenas de ideias” que teve, de como ele tentava usar a noite como um momento em que tinha que reiniciar seu cérebro, e de como ele encontrou momentos tanto longe como dentro do estúdio tão inspiradores.

Se algum bloqueio na mente criativa do compositor acontecesse — e aconteceu — ele ficava “fazendo bico” na varanda ou ia se distrair assistindo a programas de TV com sua esposa, Jenna.

De fato, pergunte ao Tyler qualquer coisa sobre os fundamentos de Trench e a fragilidade da música em questão, e o vocalista de voz mansa se transforma em uma espécie de tagarela incomum. Josh, enquanto isso, ouve atentamente ao lado dele — assim como fez quando seu colega de banda lhe passou essas ideias por telefone no ano passado.

“Eu não sei se nós conversamos sobre isso ou não,” Tyler gesticula para Josh no no meio da conversa, de repente trazendo uma revelação surpreendente sobre si mesmo: “Mas houve um momento em que eu comecei a odiar minha própria música. Eu odiei cada ideia que tive.”

“Mas então eu ligava o rádio e me sentia tão incentivado. O rádio salientava para mim: ‘Tyler, você não odeia sua própria música, você odeia todas as músicas agora.'”

O par começa a rir.

“E havia algo sobre isso que era como ‘Oh, eu estou neste estado muito crítico agora, e é aí que eu deveria estar enquanto escrevo música.'” Foi revigorante saber que não era apenas a minha música — foi a minha reação a tudo.”

Embora Tyler tenha, felizmente, escapado daquele estado mental em particular, ele ainda está em um estado contemplativo. Na data da entrevista com a Kerrang!, twenty one pilots está a um mês de completar o prazo para envio de 15 de agosto para o álbum. Uma cópia de Trench ainda não chegou às mãos da banda; e é provável que somente naquele momento Tyler sinta os verdadeiros resultados de sua mais recente — e mais intensa — batalha com a música.

“Houve momentos em que senti: ‘Isso vai me destruir. Eu não sei se vou conseguir fazer isso'”, admite ele. “É por isso que mal posso esperar para ver uma cópia física — essa ideia de segurar algo em sua mão, meio ‘Oh, meu Deus! Tudo isso está bem aqui!’ Vai ser algo louco, emocional, que provavelmente se compara a segurar seu filho (risos), o que eu ainda não fiz, mas vamos ver…”

Por enquanto, pelo menos, a banda fez todo o possível para preparar esse “filho” de 14 faixas para o mundo que o aguarda.

“Eu não sou mais capaz de acrescentar nada à minha avaliação dessa coisa,” Tyler sorri com uma sugestão duradoura de exaustão em seu rosto. “Eu me senti assim muitas vezes até o final do álbum. Eu acho que isso é uma prova de que eu fisicamente não poderia ter feito mais…”

Ele sorri novamente.

“É uma sensação boa quando você sabe que chegou a esse ponto.”


MAIS FUNDO EMBAIXO DA TERRA.

A teoria por trás do apagão nas redes sociais do twenty one pilots…

JOSH DUN: “A ideia do conceito de se afastar das redes sociais começou em 2011 ou 2012. Só o que parecia para nós mentalmente, no sentido de, “Como isso seria possível na nossa cultura?” Nós crescemos num mundo em que bandas estão se auto-promovendo — é o que você tem que fazer. Eliminar esse fator foi assustador, mas foi algo que sentimos que valia a pena experimentar e ver como afetaria as coisas. Redes sociais podem ser uma distração às vezes (risos). Remover um pouco disso foi saudável, e de algumas formas eu ainda sou afetado por isso. Nós estamos “de volta online” agora, mas às vezes eu esqueço de tirar uma foto de algo ou falar sobre algo publicamente porque eu aprendi a viver mais no momento.”

TYLER JOSEPH: A verdade é que, onde quer que os humanos se reunam, vai ter um muita comoção. Tem emoções que você pode despejar nisso, tem emoções que você pode receber — e no fim das contas é isso que a internet é. Um monte de nós que nos reunimos nessa área, e nós estamos compartilhando sentimentos. E eu sabia que eu queria preservar todas e qualquer emoção apenas para esse álbum. Eu não queria que ele fosse afetado por nenhuma fonte externa. Então não é, necessariamente, nada contra as redes sociais; era mais uma proteção ao processo de escrita e gravação, que são muito delicados. Era sobre tentar bloquear todas as pressões e influências de fora.


LINHA DO TEMPO

PEGANDO VOO — A ascensão do twenty one pilots tem sido como um meteoro. Foi assim que eles fizeram…

30 DE ABRIL DE 2012: TWENTY ONE PILOTS FIRMA SEUS INTEGRANTES E ASSINA CONTRATO COM FUELED BY RAMEN.

Um ponto de partida óbvio, mas importante. Enquanto Tyler estava fazendo música usando o nome twenty one pilots desde 2009, foi apenas quando ele juntou forças com Josh (e os integrantes anteriores Nick Thomas e Chris Salih saíram) três anos depois que a atenção começou a aumentar.

8 DE JANEIRO DE 2013: O LANÇAMENTO DO ÁLBUM VESSEL EM UMA GRANDE GRAVADORA.

O álbum alcançou a modesta posição de #39 nas paradas do Reino Unido, mas todo mundo tem que começar em algum lugar, certo? Com queridinhas dos fãs como “Car Radio” e “House of Gold”, Vessel se tornou um marco dos incríveis shows da banda, assim como a base da qual a mistura de pop, rock, hip hop e todas-as-coisa-no-meio-disso da dupla se origina.

17 DE MAIO DE 2015: BLURRYFACE, POR SUA VEZ, OS TRANSFORMA NUM FENÔMENO GLOBAL.

“Tendo se espreitado na beirada do rock nos últimos anos, twenty one pilots está marchando corajosamente agora, turvando as linhas entre os gêneros em uma busca de provar que dançável é o novo pesado,” nós escrevemos na nossa análise original do álbum (K!1568). Uma avaliação bem justa, mesmo que sejamos nós mesmos a falar.

5 DE AGOSTO DE 2016: ELES SE JUNTAM À TRILHA SONORA DE ESQUADRÃO SUICIDA COM “HEATHENS”.

Ficando ao lado de artistas como Eminem e Panic! At The Disco na trilha sonora do filme de super heróis da DC Comics, twenty one pilots se tornou o destaque tanto do álbum quanto do próprio filme. O clipe da música também sorrateiramente deu uma pista de onde eles iriam com Trench

11 E 13 DE NOVEMBRO DE 2016: ELES FAZEM DOIS SHOWS LOTADOS NO ALEXANDRA PALACE.

Apenas três noites antes do lançamento de Blurryface, twenty one pilots tocou no Boston Music Room, em Londres, para 250 pessoas. Os últimos shows do ciclo de turnê do álbum culminaram em frente a 20.000 fãs eufóricos em duas noites lotadas no Alexandra Palace da capital (Londres). Nós não somos muito bons em matemática, mas isso foi um salto bem grande.

6 DE DEZEMBRO DE 2016: ELES SÃO INDICADOS A INCRÍVEIS CINCO GRAMMY AWARDS.

Gravação do Ano? Check. Melhor Performance de Rock? Check. Melhor Música de Rock? Check. Melhor Performance de Grupo/Duo Pop? Check. Melhor Canção Composta para Mídia Visual? Check. Para a marca única de rock alternativo honesto do twenty one pilots, esse reconhecimento foi no mínimo satisfatório (além de absolutamente merecido).

12 DE FEVEREIRO DE 2017: E ENTÃO ELES GANHARAM UM GRAMMY.

Tyler e Josh ganharam seu primeiro Grammy na 59ª edição da premiação, ganhando a categoria de Melhor Performance de Grupo/Duo Pop pelo single de Blurryface, “Stressed Out”. Como se isso não fosse o suficiente, o par recebeu o prêmio apenas com as roupas íntimas, com Tyler contando orgulhosamente para os espectadores confusos: “Qualquer um, de qualquer lugar, pode fazer qualquer coisa.” Awwwww.

23 DE JUNHO DE 2017: O VÍDEO DE “STRESSED OUT” CHEGA A UM BILHÃO DE VISUALIZAÇÕES.

Sim, um bilhão. O ‘clube do bilhão’ não é uma sociedade fácil de entrar, com apenas cerca de 100 vídeos que atingiram a marca. No meio de 2017, quando a entrada para o clube era ainda mais seleta, twenty one pilots conseguiu com o vídeo de “Stressed Out”, levando Tyler e Josh — e aquele adorável aperto de mão secreto — a uma liga exclusiva e cheia de superstars.

1 DE MARÇO DE 2018: TODAS AS MÚSICAS DE BLURRYFACE ATINGEM STATUS DE OURO.

Fazendo história como o primeiro álbum a atingir essa marca, Blurryface estava ainda quebrando recordes quase três anos desde seu lançamento. “Parabéns ao twenty one pilots por essa conquista inigualável,” disse Cary Sherman, CEO e participante da RIAA, em resposta. Eles realmente são grandiosos.

28 DE MAIO DE 2018: O VÍDEO DE “HEATHENS” ATINGE UM BILHÃO DE VISUALIZAÇÕES.

Dividido juntamente com filmagens do filme Esquadrão Suicida (e que fazem o filme parecer melhor do que é…), Tyler e Josh conquistam, com o poderoso “Heathens”, seu segundo vídeo no YouTube a chegar nessa marca. E esses números ainda crescem, enquanto fãs assistem novamente e percebem as sutis trocas de cores, em alusão à Trench, provando que você precisa prestar bastante atenção a todos os movimentos desta banda.


Trench foi lançado em 5 de outubro de 2018. twenty one pilots sairá em turnê pelo Reino Unido esse ano — Veja a agenda de shows para mais informações.


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Comunicado

Por decisão unânime, a equipe da Mutant Kids Brasil decidiu dar uma pausa indeterminada nas atividades do portal.

No dia 02 de setembro de 2020, Tyler Joseph demonstrou indiferença a causas sociais que são importantes para nós e por isso não nos sentimos mais confortáveis em continuar o nosso trabalho de cobrir a banda twenty one pilots.

Depois de meses recebendo mensagens de fãs pedindo que ele se posicionasse em suas plataformas digitais em relação a tópicos importantes, como o movimento Vidas Negras Importam nos EUA e a crescente onda de homofobia na Europa, Tyler publicou uma foto usando tênis de plataforma (salto) como piada, dizendo que estava sim usando sua plataforma.

Horas depois de causar controvérsia, ele começou a falar sobre saúde mental, dizendo que é essa a sua causa, e que ele já carrega peso demais, mas que admira quem batalha por outras causas.

Não é a primeira vez que ele diz algo assim. Em 2016, quando o casamento homoafetivo foi enfim legalizado nos EUA (país onde Tyler mora), ele ficou em silêncio. Ao ser perguntado sobre o que ele achava, Tyler publicou uma mensagem dizendo que não havia postado sobre isso porque "qualquer outra causa, não importa o quão nobre seja, torna-se um peso grande demais para carregar". Ele pediu paciência até que um dia ele "consiga carregar mais peso".

Isso nos leva a concluir que Tyler ainda não aprendeu a carregar o "peso" que nós somos, 4 anos depois. Não sabemos se faz sentido dedicar nosso tempo e energia a alguém que nos enxerga desta forma. A impressão que temos é que as nossas batalhas não são as mesmas, como ele dizia. E isso nos magoa.

Não achamos que todas as celebridades são obrigadas a se posicionar sobre tudo. Mas acreditamos que as pautas sobre identidade estão diretamente ligadas à saúde mental, base sobre a qual a banda construiu sua carreira. Tyler mencionou dados sobre depressão e suicídio, por exemplo, mas ele não olha mais fundo na questão. Há diversos estudos que relacionam esses males ao preconceito que pessoas negras e LGBTQ+ sofrem. É preciso enxergar os fãs.

Não estamos publicando esse texto como uma tentativa de convencer vocês a pensarem como nós. Assim como muitos defendem a opção de Tyler de não se pronunciar, esperamos que entendam a nossa perspectiva. Nossa equipe é e sempre foi diversa, com contribuição de pessoas de diferentes estados, grupos sociais, gêneros, sexualidade, religião e posicionamento político. Infelizmente, não nos sentimentos tão acolhidos pela banda como antigamente, e assim como diversos outros portais pelo mundo estamos tomando essa decisão.

O site, as redes sociais e o canal no YouTube continuarão no ar para quem quiser conferir o conteúdo que publicamos sobre a banda desde 2014.

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