Kerrang! Magazine: Desvendando Trench

Publicado por Kaline Linhares - Arquivada em 2018

Tradução de Isabelle Knupp
Revisão de Kaline Linhares

twenty one pilots deu muitos detalhes sobre seu hiato de mais de um ano e o surgimento do mundo que hoje conhecemos como Trench para a Kerrang! Magazine, uma revista britânica que é lançada semanalmente. Confira abaixo a tradução da edição K!1743 de 13 de outubro de 2018. Leia a tradução da edição anterior a essa e não perca nenhum detalhe sobre o processo criativo de Trench.


MAIS FUNDO QUE O INTERIOR

Na última semana, twenty one pilots nos introduziu à era Trench. Agora, Tyler Joseph e Josh Dun cavam cada vez mais fundo nos detalhes de seu processo criativo e as preocupações que surgem com ser uma das maiores bandas do mundo…

Texto: Emily Carter | Fotos: Adam Elmakias

Houve muitos dias, durante o último ano, em que Tyler Joseph olhou para o hard drive em seu estúdio no porão com indignação. Dentro [do HD], havia as melodias e letras que formariam o álbum novo do twenty one pilots, Trench. Porém, com a base de fãs leal da banda, que aguardava ansiosamente para ouvir algo novo, [as músicas] não estavam sempre alcançando as expectativas dele.

“Era frustrante trabalhar no estúdio por oito horas e ter literalmente nada para mostrar por isso,” o músico começa. “Eu olhava o hard drive de manhã cedo, e novamente à noite, e nada tinha sido adicionado. Eu experimentei tantas coisas e nada pareceu certo…”

Tem uma música neste álbum que sumariza perfeitamente o processo complicado por trás do cuidadosa criação. Intitulada “The Hype”, seu significado é brilhantemente cheio de camadas, possuindo um nível de consciência própria que poucos em situações similares teriam a capacidade de explorar. Seu produtor estava ponderando a “pressão externa” de escrever e gravar esse material em sua casa, em Columbus, Ohio.

Lá estava ele, tentando dar continuidade ao antecessor bem-sucedido Blurryface, enquanto também eliminava crucialmente quase todos ao seu redor do projeto, com exceção do colega de banda Josh Dun e o co-produtor Paul Meany. Sem influências externas, seja família, amigos ou conselheiros musicais, que só iriam ouvir este trabalho quando Tyler decidisse que era a hora certa.

“Quando você não tem essas pessoas ao redor, é muito mais fácil ser honesto com a ideia de algo ser bom ou não,” o homem de 29 anos sugere. “Se eu fizesse aquela coisa estereotipada de convidar homens famosos e amigos que são celebridades para que eles ouvissem e dissessem, ‘Isso vai ser um hit’, não seria uma boa representação sobre ser bom ou não. E isso é algo em que eu sempre irei acreditar. Tire os homens famosos de lá.”

Trabalhar dessa forma, Tyler explica, eventualmente iria gerar a música mais honesta e verdadeira possível. Entretanto, ter de revelar os seus pensamentos mais secretos, quando a música estava pronta para ser apresentada, não fez as coisas ficarem mais fáceis.

“Existe essa outra camada que é ainda muito importante para mim,” o vocalista continua, detalhando as emoções conflituosas que sentiu durante o processo. “Seja um amigo próximo, o meu empresário, ou os meus irmãos, eu realmente quero suas opiniões a respeito disso. E nesse álbum em particular, eu estava com muito medo de mostrá-los a ideia antes de estar pronta, porque eu queria tanto que a reação deles à versão final fosse a mais próxima da real possível. Então tivemos pessoas que no passado ouviram ideias de todos os estágios [da produção] desde cedo, para do nada eu estar inclinado a dizer, ‘Por favor, vocês podem esperar?’”

A ideia de uma música é tão frágil,” ele adiciona, pensativo. “Um único comentário pode mudá-la completamente.

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No processo de um ano de junção das numerosas facetas de Trench, Tyler Joseph encontrou-se inspirado liricamente por tudo e qualquer coisa. E se misturar com os seus arredores — independente de quão insignificante parecia na época —, acabou por se provar sendo uma ferramenta incrivelmente útil.

“Seria estar do lado de fora, rodeado pela natureza em um ponto, dirigindo meu carro ou fazendo algo mundano, como comprar comida ou gás,” ele explica sua jornada acidental pela frase perfeita. “Nesses momentos, você se sente mais receptivo a novas ideias. Letras e certas palavras meio que surgem do nada quando estou fora do estúdio. Houve momentos em que isso definitivamente ajudou a desvendar algo.”

E isso foi apenas o início dos “desvendamentos de códigos” do twenty one pilots. Assim que o vocalista era arrastado de volta para o estúdio após conseguir uma nova ideia ou música, entretanto, ele batia contra uma parede de tijolos novamente. Separadamente, Tyler começou a tentar encontrar novas formas de superar o bloqueio criativo — ou the hump (algo como “o surto”, fase de obstáculos), como ele se refere. Depois de quatro ou cinco músicas em Trench, absolutamente nada vinha à sua mente. Então ele mudou sua abordagem completamente, e isso resultou em Neon Gravestones — a música mais importante da carreira do duo até agora.

“Eu aprendi a mais ou menos me forçar a compôr um estilo de música diferente do que está sendo almejado,” ele explica. “Então, digamos que eu quero alcançar um estilo mais animado, e não está funcionando. ‘Neon Gravestones’ foi criada um momento onde eu estava tipo, ‘Quer saber? Eu vou tentar algo novo, lento, diferente. Deixe-me tirar essa ideia do meu sistema, aí eu posso recomeçar.’ Isso é realmente o que essa música se tornou para mim — foi um exercício para me tirar do hump. E assim que nós terminamos, eu vi tudo claro novamente e escrevi mais três ou quatro músicas.”

Enquanto Tyler trabalhava nessa fusão de rock, hip-hop, pop e tudo que está entre eles, Josh encorajava seu melhor amigo em cada passo. E ainda agora, ele apoia a direção musical que twenty one pilots tomou com Trench — mesmo que, como os comentários no Facebook da Kerrang! irão denunciar repetidamente, não é estritamente rock.

“Bem, em algumas situações eu irei concordar, porque não é música rock,” o baterista ri. “Mas é 2018, e as linhas estão borradas em todos os lugares, com tudo. Por exemplo, séries da Netflix podem ser comédia e drama ao mesmo tempo. Com o Spotify, você pode ouvir alguma coisa e clicar no aleatório, ou ter uma playlist com tudo inserido nela. Eu sinto que categorizar as coisas é provavelmente mais difícil. Mas nós temos elementos que são rock, com certeza.”

Esses comentários te afetam?

“Pessoalmente, eu não fico muito incomodado por isso,” Josh dá de ombros. “É estranho para mim que tenha pessoas que ainda gostam muito de classificar, e que tem um estilo ao qual se apegam. Nós nunca tivemos essa estrutura, e parece que é como a cultura é agora.”

Quando twenty one pilots faz música, então, claramente não há um aspecto que é ignorado. Se Tyler está escrevendo uma música, não há uma nota, batida ou segundo que está fora de lugar. Quando se trata do álbum como um todo, todo e qualquer momento — dos refrões irritantes da rádio, às pausas e transições entre músicas — foram considerados. E, em termos de pensar numa era totalmente nova, twenty one pilots pensa em toda a arte e as novas ideias ao vivo que irão acompanhá-la — assim como eles têm feito ao levar Trench para a estrada com a sua Bandito World Tour.

É por isso que, quando ocorre uma reviravolta e o vocalista tem uma pergunta para a Kerrang!, ficamos levemente chocados.

“Considerando que o álbum sai dia 5 de outubro,” ele diz, “e nosso primeiro show da turnê americana é 16 de outubro, você acha que é tempo o suficiente para tocar músicas novas, nós deveríamos fazer isso?”

Er, sim, obviamente…

“Você tem certeza? É pouco mais de uma semana…”

Isso é apenas uma prévia das mentes preocupadas de Tyler e Josh. Seu sucesso é quase extraordinário e os seus fãs estarão lá em cada passo do caminho. Mas tem sempre aquele sentimento apreensivo na parte de trás de suas mentes, que um dia as pessoas simplesmente não se importarão mais.

“Eles têm sido a parte mais duradoura e imutável da nossa carreira,” Tyler concorda. “Honestamente, quando você passa tempo suficiente no porão, você começa a perder uma bússola interna. Quando eu não sabia qual direção tomar, eu sempre colocava sobre a perspectiva deles.

Não há dúvidas de que os fãs de twenty one pilots vão imergir em Trench — além do mais, eles ajudaram a construí-lo inconscientemente. Mas até Tyler e Josh verem isso por si mesmos, nenhuma garantia irá confortá-los, aparentemente.

“Esse álbum é o que tem mais nós até agora,” Tyler conclui. “E, se está faltando algo, ou até mesmo se não viralizar, então será tipo, ‘Ok, nós aprendemos nossos papéis e também a permanecer no que somos bons’. Talvez nós chegaremos lá e nos daremos conta disso, mas não ficaremos com vergonha. Nós não saberemos até vermos como se sai…”

Está na hora de se aprofundar nas trincheiras e descobrir.


Seção Inferior: Caixa Vermelha

RASTREADOR DE VOO

Quer uma compreensão maior da força da visão de Tyler para Trench? Por aqui…

“Eu sabia que queria exatamente 14 músicas,” ele revela. “Eu sabia, enquanto as escrevia, enquanto cada uma estava permanecendo ou não, que estava tomando um ‘espaço’. Várias bandas e artistas têm 40 músicas, e então apenas as escolhem. Eu escolho não entre 40, mas entre centenas de ideias. Então eu não tinha 40 e poucas músicas, eu tinha centenas ali, e em algum momento perto do segundo verso eu percebia se ia funcionar ou não.

“Eu não tinha várias músicas como opções, mas nenhuma delas realmente chegava até o final a não ser que tivessem o que precisassem.

“E então, no final… eu acho que o jeito que você olha pra isso é que eu verdadeiramente escrevi 14 músicas. Elas passaram por várias versões diferentes e transformações no processo… Mas eu acho que isso muda um pouco esses números!”


(ANÁLISES) CAVANDO FUNDO

twenty one pilots retorna com o seu trabalho mais ambicioso até o momento

O peso deve ser inimaginável. Para um homem como Tyler Joseph, que aparenta aguentar o fardo dos problemas do mundo em seus ombros mais que a maioria, deve ter sido quase insuportável. Blurryface não somente transformou twenty one pilots na maior banda alternativa do mundo — mudou a vida dele e de seu melhor amigo e colega de banda Josh Dun para sempre. Eles conseguirem montar Trench é testemunha de sua visão artística e determinação. Dizer que é habilidoso e grandioso apenas reforça o porquê de eles serem amados por tantos, e muitos mais seguirão esse caminho.

O mais surpreendente de tudo é como Trench lida com todo o ar quente que rodeia twenty one pilots. Esqueça os dados de streaming altíssimos, os prêmios importantes e outras conquistas; ultimamente, esta é uma banda que faz música que soa e parece diferente de qualquer outra coisa que tenha surgido antes. Talvez seja por isso que a atmosfera que Trench cria seja tão transcendental e diferente. É uma jornada de 14 músicas, obrigando seus ouvintes a mergulharem fundo, absorvendo cada curiosidade musical, troca efetiva de versos e convites a repetir visitas ao seu fantástico, desenvolto, universo.

É um álbum extremamente conceitual, que se passa na terra de faz de conta e metafórica de Dema, contando fábulas de ditadores opressores e rebeldes e, sendo assim, é um tipo de álbum que será despedaçado, alvo de especulações, reimaginado e adotado por fãs por um longo período. Nas suas camadas e dentro de sua alma, entretanto, é twenty one pilots no seu nível mais pessoal e criativamente corajoso.

Há hits futuros e favoritos dos fãs a cada momento, mas a parte mais importante, bem no meio de tudo, é “Neon Gravestones” — uma faixa que talvez seja a declaração gravada mais corajosa de twenty one pilots até o momento. Um padrão assustador no piano, percussão gentil e batidas vacilantes ditam o tom enquanto Tyler entrega suas letras com uma paixão e emoção arrepiante, falando do delicado tema suicídio com sensibilidade e carinho, clamando uma celebração da vida e uma mudança nos pensamentos e na cultura a respeito das quesões de saúde mental.

A forma como twenty one pilots mira alto aqui, e ainda assim também lança casualmente uma das mais viciantes, mais acessíveis músicas pop alternativas do ano, dá informações sobre o nível em que Tyler e Josh estão. Cinco álbuns profundos, no topo da pressão que veio com o sucesso que foi Blurryface… é impressionante o que esses dois criaram em Trench. E se eles pensaram que o que veio antes mudou o jogo para eles, o que acontecerá depois parece ser uma história totalmente nova.

[Análise de David McLaughlin]


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