Conceito

Lançado em 5 de outubro de 2018, o quinto álbum de twenty one pilots traz um universo inteiro para a mesa, algo ainda maior do que a banda fez na era Blurryface. Para ambientar as músicas, a banda criou todo um mundo onde ficam duas localidades principais: Dema, uma cidade controlada por um sistema opressor, e Trench, a área próxima onde rebeldes se encontram para lutar contra os líderes de Dema. Conceitualmente, falamos mais sobre esses detalhes na página Guia de Trench.

Liricamente, o álbum também eleva temas apresentados nos discos passados. Se no primeiro, em 2009, Tyler escrevia sobre batalhas mentais mais individuais, fossem as dele (“Taxi Cab”) ou de amigos (“Friend, Please”), em relação a religião (“Implicit Demand For Proof”) ou ao estado da humanidade (“Isle Of Flightless Birds”) agora não há dúvidas de que ele luta pela melhora de toda a sociedade, representando bem a posição do twenty one pilots no mundo real.

A narrativa que podemos decifrar de tudo isso é que Tyler começa como um prisioneiro/fugitivo na sequência de “Jumpsuit” e “Levitate” e acaba dizendo que, em algum tempo, vai “Leave The City” (deixar a cidade, ou Dema), mas que por enquanto vai apenas continuar vivo. Como vimos nos vídeos, parece existir um loop (uma história que se repete), em que Tyler sempre foge com a ajuda de Josh e os outros banditos, mas acaba sendo capturado de novo por Nico em Trench. A questão, então, talvez não seja fugir em desespero, mas em entender o sistema e aprender a lutar contra ele enquanto se convive com ele, o que pode ser uma grande metáfora para nosso cenário social atual e problemas psicológicos/de saúde mental.

Meses depois do lançamento, Tyler confirmou em uma entrevista que Nico (Nicholas Bourbaki) é o nome verdadeiro de Blurryface: “O nome verdadeiro dele é Nicholas Bourbaki e este álbum é basicamente uma continuação de Blurryface.” Portanto, recomendamos que você mergulhe bem no álbum anterior para entender totalmente este!

Ouça

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CD digital (download): iTunes • Google Play

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Jumpsuit

A faixa que abre o CD também foi a primeira música lançada na era Trench, junto com “Nico and The Niners”. “Jumpsuit” foi também o primeiro vídeo da trilogia que continuou com “Nico” e “Levitate”.

A trilogia mostra três momentos de Tyler entre Dema, a cidade controlada pelos bispos, e Trench, o acampamento dos rebeldes. Em “Jumpsuit”, ele está perdido em Trench, provavelmente após os acontecimentos de “Heavydirtysoul”, e é capturado por um bispo. Em “Nico”, Josh e outros rebeldes (banditos) o ajudam a escapar da cidade. Em “Levitate”, o bispo se infiltra no acampamento e captura Tyler novamente, mostrando a dificuldade de sair do sistema.

“Jumpsuit” é o nome do macacão que Tyler e Josh já usaram diversas vezes ao longo da carreira. A música fala sobre a insegurança de Tyler ao chegar em lugares novos, não apenas literalmente, mas aparentemente também no sentido de estar lançando um álbum novo ou de viver novas fases de sua vida. O macacão que ele veste para os shows representa o poder da música que o faz se sentir mais seguro para se expressar e enfrentar seus medos.

Interpretação e teorias do vídeo de Jumpsuit: leia aqui.

Levitate

Acreditamos que a melhor forma de encarar “Levitate” é lembrar que no álbum anterior, Blurryface, a faixa 2 foi “Stressed Out”, o maior hit do twenty one pilots e que rendeu a eles um Grammy. O rap começa e acaba com os mesmos versos, em que Tyler diz que sabe como levitar e que aprendeu a cuspir fogo, truques muito tradicionais entre mágicos e ilusionistas.

Isso, junto aos versos em que ele fala sobre as comuns quebras de estrutura das canções do twenty one pilots (“Chorus, verse, chorus, verse / Now here comes the eight / Wait, habits here too / You’re the worst, your structure compensates”), soa como uma espécie de autocrítica, uma reflexão do que a banda pretende fazer com o álbum. Ee diz que as próprias técnicas de fazer música parecem uma tentativa de dominar o público já na faixa 2 e que, dessa vez, pelo menos “eles” (os fãs) saberão que “Levitate” partiu de um lugar sincero dentro de Tyler, e não de uma tentativa de repetir o feito de “Stressed Out”, como muitas pessoas esperariam. Basicamente, ele parece querer dizer que está criando uma mensagem verdadeira, e não apenas fazendo um truque de ilusionismo. O rap também faz referência ao título de “Not Today” e a um verso de “Car Radio”, quando Tyler diz que “recuperou o que um dia comprou”, falando que não precisa mais preencher o “espaço vazio”. Ao dizer que é um abutre que se alimenta de dor, Tyler está falando sobre a própria discografia da banda, cheia de canções sobre dor emocional com o objetivo de superá-la.

Apesar de parecer um interlude e de ser a música mais curta do álbum, “Levitate” tem uma letra longa devido à velocidade do rap e é cheia de temas. Outros dois tópicos levantados parecem ser a fé e a mídia. Quando Tyler desafia para que alguém “desça” e que “não deveria dizer isso”, mas que tudo que precisa desse alguém é uma maldição, isso parece remeter a “Implicit Demand For Proof”, do primeiro álbum (2009), em que ele desafia Deus a aparecer e acertá-lo com um trovão. É como pedir que Deus dê uma prova de que está ali, mesmo que essa prova seja um castigo por duvidar da presença Dele, já que acredita-se que Ele é onipresente.

A questão da mídia aparece quando Tyler fala sobre os abutres rondando em busca de sangue e quando ele diz que vivemos em uma cultura de muita exposição. Isso pode ser uma referência à pausa que a banda fez antes do lançamento de Trench, mantendo distância dos holofotes para evitar momentos negativos. Eles também querem mostrar que não são algo passageiro, e esse é o objetivo musical de Trench.

Morph

“Morph” foi uma das faixas favoritas de muitos fãs desde o lançamento do CD e até mesmo tocou em algumas rádios na época devido ao hype. Ela foi a música não single mais vendida e mais reproduzida do álbum nos primeiros meses. Com seu ritmo contagiante, na verdade a letra toca em temas bem delicados, ao refletir sobre a dualidade de bem e mal e também de céu e inferno enquanto faz metáforas com Dema e Nico, elementos do universo de Trench.

Os primeiros versos falam sobre a inevitabilidade da morte e o pânico causado quando se pensa demais sobre isso. Quando Tyler diz que pensar “se” vai morrer ser puramente pânico e algo que invade o dia de hoje, ele está falando sobre a ansiedade que surge ao se pensar muito em como as coisas vão acabar e o que acontece depois, enquanto pensar “quando” vai morrer é uma tristeza solene, no sentido de que, hoje em dia, é comum se pensar no momento da sua morte e em fazer planos para quando esse dia chegar. Não no sentido de planejar a sua morte, mas do que acontecerá em consequência dela. Nosso estilo de vida nos pressiona a fazer seguros, escrever testamentos e coisas do tipo, sendo inevitável pensar no amanhã. Existe uma linha tênue entre entrar em pânico e pensar logicamente em algo triste.

Essa é a ponte para os próximos versos, em que Tyler escreve sobre ir “acima”, “ao redor” e “abaixo” da morte. Ir para cima é “fé cega” porque não há provas científicas da vida no Paraíso após a morte, mas quando se tem fé, que é o caso de Tyler devido a sua religião cristã, acredita-se nisso. Ir ao redor da morte como um “milagre científico” provavelmente é uma reflexão sobre as tecnologias e a medicina moderna, que buscam formas de prolongar a vida, embora evitar a morte indefinidamente ainda não seja possível. E ir para baixo, muito provavelmente, é uma referência ao Inferno ou a uma vida sem regras, em que se vive inconsequentemente sem pensar para onde vamos depois que tudo acabar.

Tyler escolhe ir para cima e se pergunta se ele ainda é o mesmo, dizendo que ir por baixo começa a fasciná-lo. Isso parecer ser uma retomada da dúvida na fé, tema de “Doubt”, “Implicit” e outras canções. No meio de tantas dúvidas e incertezas, ele decide apenas cantar o refrão: “Se eu continuar me movendo, eles não saberão / Eu me transformerei em outra pessoa / Um mecanismo de defesa”. Em vez de fazer uma escolha, ele simplesmente vaga como um fantasma, se transformando no que parecer melhor pelo caminho. Seria algo como não enfrentar seus medos/problemas/ansiedade, e simplesmente seguir em frente tentando driblar tudo isso em constante mutação.

Ao dizer que “Nicholas Bourbaki” sempre tenta interrompê-lo, Tyler está se referindo diretamente a um grupo de matemáticos que carregava este nome no século passado. Eles ficaram famosos ao tentar provar a existência de Deus usando métodos matemáticos, o que, para muitos, não é possível, já que usar uma linguagem humana para provar algo superior à nossa existência seria incompatível, e também por introduzirem o símbolo ∅ para representar um conjunto vazio. Se você acompanha twenty one pilots, sabe bem que o círculo riscado é um símbolo recorrente no imaginário da banda. Tyler também confirmou em uma entrevista que Nicholas Bourbaki é o nome verdadeiro de Blurryface, então dizer que Nico está sempre tentando atrapalhá-lo é uma retomada a tudo o que sabemos sobre o álbum anterior. Morph também é sobre Blurryface.

Por fim, a última alegoria que Tyler apresenta é a de “uns e zeros” (1 e 0). Luzes piscam, transmitem coisas e resultam nesta sinfonia (música). Vivemos em um mundo fundamentado em tecnologias digitais, e o sistema mais básico que sustenta tudo isso é o binário, que carrega informações usando apenas os dígitos 0 e 1. Isso pode ser uma referência aos códigos e enigmas que a banda publica para se comunicar com fãs e com a própria interação com o fandom, ao perguntar se alguém está ouvindo e que as “luzes” (mensagens, notificações, interações virtuais?) piscam para ele.

Um bônus: o “Josh Dun” dito no fim da música é uma referência a “The Judge”, em que Tyler cantou “Josh Dun” durante uma gravação ao vê-lo do outro lado do vidro no estúdio e o vocal acabou sendo adicionado na versão final da música.

My Blood

A música não é tão enigmática quanto “Morph”. Tyler descreve várias situações de conflito para provar que continuará ao lado de alguém mesmo nos momentos mais difíceis e quando ninguém mais estiver oferecendo apoio. Desde o lançamento da música, antes do álbum, os fãs teorizavam que “My Blood” deveria ser sobre os irmãos de Tyler por conta da letra, em que ele se coloca à disposição para ajudar alguém “do sangue” dele. No show da Bandito Tour na cidade de Detroit, Tyler contou que a letra foi inspirada pelo nascimento de Mia, sua sobrinha, que estava presente no show com a mãe Madison. Ele disse que a canção representa todo o apoio e lealdade que ele dedica a ela agora e continuará dedicando à medida que ela cresce.

Outras teorias de fãs diziam que “My Blood” poderia ser para nós, que ouvimos as músicas e nos sentimos conectados à banda por causa delas, e algumas diziam que “meu sangue” poderia ser literalmente o sangue de Tyler, como se ele estivesse cantando para si mesmo como uma forma de demonstrar amor próprio.

Falamos mais sobre “My Blood” na matéria sobre a música e na matéria sobre o clipe.

Chlorine

Essa também é a favorita de muitos fãs e foi até lançada como single oficial da banda, sendo divulgada nas rádios e tendo um clipe gravado. O vídeo não tem uma relação muito clara com os vídeos anteriores, embora existam teorias de que ele possa representar uma fantasia de Tyler em Dema após ser recapturado por Nico no vídeo de “Levitate”.

Uma figura presente no imaginário de “Chlorine” é o personagem Ned, um monstrinho que adora cloro. Meses depois do lançamento do clipe, a banda abriu lojas chamadas “Ned Bayou” por tempo limitado, onde venderam itens temáticos. Alguns tinham a frase “Neuro Expansion Device” (N-E-D!), algo como “dispositivo de expansão neural”. Isso confirmou de vez as teorias de que a música simboliza o processo criativo como algo doloroso e produtivo ao mesmo tempo. O cloro é uma substância que purifica a água e que é usada como item de limpeza, mas em excesso ou se manuseado incorretamente pode fazer mal à saúde.

Na letra, Tyler chama a batida da música de substância química (chemical). De forma simples, o ato de compor e cantar torna-se algo catártico, uma maneira de limpar as vibrações negativas dentro de si e de expor a criatividade de alguma maneira. Quando ele diz que “planeja a fuga de dentro dos muros”, essa é uma referência aos muros altos de Dema, onde as pessoas são mantidas como prisioneiras. Por isso e pelo significado de Ned que citamos acima, muitos acreditam que o clipe de Chlorine é como um delírio ou fantasia do Tyler que foi arrastado de volta para Dema no clipe de “Levitate”.

Os versos “rebelde flor de cravo vermelha / cresce enquanto eu decaio” soam complicados. Com um pouco de pesquisa e pensando no que escreveram na página do Genius, acreditamos que Tyler se refere a dois pontos: a flor de cravo vermelha é a flor oficial do estado de Ohio, onde Josh e Tyler nasceram e onde a banda foi formada. Em química, decaimento é como chamamos o evento no qual o núcleo do átomo de um elemento químico se torna instável, liberando radiação, algo semelhante às “vibrações venenosas” do cloro. Tyler pode estar dizendo que, enquanto ele segue instável e produzindo arte, a flor de cravo vermelha, a base de fãs de Ohio, torna-se rebelde e cresce, ou seja, o número de fãs da banda aumenta pelo mundo, além de Ohio.

Tyler depois volta a mencionar a “rebelde vermelha” ao dizer que a mantém no bolso da jaqueta. A jaqueta que ele tem usado na era Trench tem bolsos sobre os peitos, o que pode simbolizar que ele mantém a flor (Ohio, os fãs) no mesmo lugar onde guarda todo o simbolismo de Chlorine (o doloroso processo criativo), no coração (que fofo?). O tema da criatividade também foi explorado em “Levitate” e volta a ser trabalhado em “Pet Cheetah”, como você vai ver mais a seguir.

Falamos mais sobre “Chlorine” na matéria sobre o clipe.

Smithereens

Essa talvez seja a canção mais simples do álbum por ser tão direta e por falar de algo que já vimos anteriormente. Smithereens é como uma sucessora de “Tear In My Heart” e tem o mesmo peso que a antecessora. Tyler até brinca na ponte da canção, dizendo que nós sabíamos que ele precisava colocar uma música assim para ela no álbum. Ele está declarando seu amor por Jenna Joseph, sua esposa, e se colocando em perigo por ela. “Smithereens” significa algo como “pedacinhos” ou “cacos”. Tyler diz que, por ela, lutaria com um cara muito maior do que ele, mesmo sabendo que seria destruído em pedacinhos, já que ele pesa apenas 69kg. Ele entende que não é tão durão quanto muitos caras por aí, mas mesmo assim está disposto a apanhar por Jenna. Isso lembra bastante TIMH, já que na outra canção ele diz que “às vezes você precisa sangrar para saber que está vivo e tem uma alma” e no clipe ele até mesmo é golpeado por ela, simbolizando as dores boas do amor e o crescimento que isso traz.

Neon Gravestones

Esta talvez seja a canção mais delicada de todo o álbum, já que ela fala bem claramente sobre suicídio e reflete sobre o que aconteceria após a morte de Tyler se ele partisse em breve. Um detalhe importante é que a melodia do piano é um sample da clássica Moonlight Sonata de Beethoven, o que dá a “Neon Gravestones” uma atmosfera bem épica e reconfortante.

Tyler começa nos convidando a acompanhá-lo para ouvir a mensagem que ele está trazendo, avisando que é uma questão insana e que pode te fazer perder a coragem. Ele argumenta sobre algo que ele considera um problema em um rap que soa como se ele estivesse recitando uma poesia: a nossa sociedade glorifica pessoas famosas quando elas cometem suicídio, tratando as perdas como se fossem vitórias. Ele reclama de como nossa cultura pode romantizar esses acontecimentos sem tratar do lado psicológico com as pessoas com as quais a mídia se comunica. Ele acredita que toda a atenção voltada a essas celebridades quando elas partem pode agravar a problemática, como se o suicídio fosse uma opção válida.

No refrão, em “Lápides de neon tentam me chamar”, Tyler está se referindo ao glamour, o brilho e o potencial midiático de uma morte nos dias modernos. O neon se refere às luzes fortes das cidades grandes (pense nos letreiros da Times Square) e dos aparelhos tecnológicos que usamos no dia a dia, e ao dizer que as lápides de neon o chamam, ele está dizendo como essa ideia de morrer e brilhar pode parecer atrativa para algumas pessoas.

Na segunda estrofe, Tyler pede para que as palavras dele não sejam retorcidas. O problema dele não é com as pessoas que cometem suicídio, mas sim com as pessoas que poderiam ter oferecido ajuda ou conscientizado mais a sociedade como um todo, em vez de apenas lamentar ou celebrar essas mortes. Em seguida ele reflete sobre a própria morte. Se ele decidisse tirar a própria vida, ele sabe que ganharia mais streams (reproduções) em suas músicas e que mais pessoas conversariam sobre essa temática devido à partida dele, aumentando sua fama instantaneamente. Tyler volta a afirmar que a opinião dele não é suave, ele está falando sério e de forma dura porque sente que é necessário, mas ao mesmo tempo reconhece que ela é conveniente, por ele já ser famoso e já ter sua voz ouvida por muitas pessoas, e pede que o movimento de conscientização não fique apenas nas palavras, mas sim nas ações. Se as pessoas famosas recebem pouco amor, as pessoas comuns recebem menos ainda, e merecem mais atenção aos seus problemas por parte do governo e da sociedade para, juntos, evitarmos o pior.

Na primeira ponte da canção, ele pede para que nós façamos uma promessa: se ele perder a luta contra si mesmo, não devemos ficar de luto nem por um dia, e sim seguir em frente. Ele não quer atenção se um dia perder o controle. Alguns fãs ficaram preocupados com esses versos, como se fossem um sinal de algo ruim. Mas depois ele reafirma sua vontade em ficar vivo, dizendo que as lápides estão chamando o nome dele, mas que elas não vão conseguir.

A música acaba com mais uma estrofe, na qual Tyler pede mais uma vez para que não o entendam errado. Ele entende que quando esse tipo de coisa acontece, de uma forma ou de outra alguns temas entram em foco na mídia, e quanto mais falamos sobre isso, mais o tabu é quebrado. É fato que há algum tempo mal se falava disso na TV, ou em canções populares, enquanto hoje em dia o suicídio e a depressão têm estado mais em voga. Mas ele pede que usem um novo ponto de vista, um em que as mortes não sejam glorificadas.

Algumas pessoas acreditam que “Neon Gravestones” pode ser o posicionamento de Tyler em relação a polêmicas recentes, como a problemática abordagem da série “13 Reasons Why”, que muitas pessoas criticam por tratar mal a questão do suicídio, e a falta de comunicados públicos de Tyler quando Chester Bennington, vocalista do Linkin Park e muito fã de twenty one pilots, tirou a própria vida.

The Hype

Depois das reflexões profundas e complexas de “Neon Gravestones”, em parte por se preocupar com o seu do futuro, Tyler manda uma mensagem simples e positiva para o Tyler do passado em “The Hype”. Ele apenas quer que seu eu do passado saiba que há pessoas como ele do lado dele por aí, e que ele não deve acreditar no “hype”, palavra em inglês usada para se referir às expectativas criadas em torno de algo ou alguém.

Em uma entrevista para a revista Coup de Main (que você pode ler em português aqui), ele explicou bem o conceito por trás da canção: “Eu acho que nessa música em particular, eu queria voltar a… Quando eu era um pouco mais jovem, talvez até na escola, um pouco da produção daquela música me lembrou disso. Mas também, liricamente falando sobre quem eu era quando era um pouco mais jovem e o que eu gostaria de ter ouvido. Essa música está particularmente falando sobre a diferença entre uma pressão interna e uma pressão externa. Muitas das coisas sobre as quais escrevo vêm da luta com uma pressão interna, mas há aquelas pressões externas do mundo ao nosso redor que podem ser abordadas também, e essa música trata particularmente dessas de uma forma que… É simplesmente um encorajamento para continuar, para fazer as coisas que merecem ser postas de lado deixarem de ser um peso.”

Tyler já falou diversas vezes que ele fazia música no porão da casa dos pais desde sua adolescência, e foi lá que ele gravou todas as canções de seu projeto solo conhecido como “No Phun Intended”, do qual ele próprio fazia cópias e distribuía para amigos em Ohio. Ele começa “The Hype” dizendo que precisa passar por isso (o conflito entre pressões internas e externas) para não desaparecer, deixar de ser quem ele é, e que para se sentir melhor ele vai voltar ao porão e gravar esses passos. É por isso que a sonoridade da música lembra bandas como Oasis, da qual ele já declarou que é fã. Não é por acaso que muitos fãs notaram a semelhança com a famosa música “Wonderwall”, que Tyler já tocou ao vivo algumas vezes nos shows do twenty one pilots. Outra curiosidade é que o álbum Trench teve muito material gravado no estúdio próprio de Tyler construído no porão de sua nova casa.

“The Hype” foi anunciada como sexto single do álbum Trench e começou a ser tocada nas rádios no dia 16 de julho de 2019. O clipe foi lançado no dia 26 de julho de 2019. Você pode ler mais sobre nossa interpretação do vídeo na matéria que publicamos aqui.

Nico and The Niners

Essa é uma das músicas do álbum mais mergulhadas no universo criado pela banda, desde o seu título. Como você já deve saber a essa altura, Nico é o nome de um dos bispos que comandam as nove seções de Dema, por isso “Nico e os nove”. Como falamos mais acima, Tyler confirmou em uma entrevista que Nico/Nicholas Bourbaki é o nome verdadeiro de Blurryface, personagem do álbum anterior, e que Trench é uma espécie de continuação do disco.

Podemos encarar a letra de duas maneiras, uma mais metafórica e uma mais literal. Interpretando os versos com o que sabemos de Dema, ela pode ser considerada o hino da fuga de Dema, como o próprio clipe mostra. Ela já começa com uma frase em reverso anunciando: “Nós somos banditos, saia de Dema e siga para o Leste, nós renunciamos o vialismo”. Banditos é como os rebeldes que querem fugir de Dema são chamados. Leste é onde o sol nasce, o que nos faz lembrar de várias músicas em que twenty one pilots fala sobre o sol e a manhã, como em “Taxi Cab”: “nós vamos dirigir em direção ao sol da manhã / onde todo o seu sangue será limpo e o que você fez será desfeito.” O leste, ou o sol, é um símbolo de purificação, de luz, de um novo dia e uma nova chance. Vialismo é como chamam os ideais dos Bispos de Dema, que glorificam a morte e agem de forma autoritária com seus habitantes.

De um ponto de vista mais analítico, NATN carrega alguns simbolismos da história do twenty one pilots. Quando eles dizem que poderiam usar o dinheiro que fizeram as lojas de lâminas lucrarem, estão falando diretamente sobre pessoas que já acusaram a banda de romantizar questões delicadas como os temas de depressão e suicídio. Josh e Tyler já falaram sobre como querem usar esses temas para levantar debates e conscientização (como vimos na letra de “Neon Gravestones”), mas nem todos acreditam ou aceitam a justificativa deles. Por isso se apropriaram da crítica neste verso, dizendo que poderiam usar o dinheiro que lucraram cantando sobre isso para alugar um cavalo e criar uma “completa distração”.

Eles literalmente alugaram um cavalo para o vídeo de “Jumpsuit”, e sabemos que os novos vídeos tiveram um orçamento maior do que os anteriores só pelo fato de terem sido gravados em regiões da Europa. “A Complete Diversion”, inclusive, é como eles chamaram o show promocional feito no Reino Unido antes do lançamento do Trench, para começar o ciclo de divulgação. Os versos em reverso (tocados de trás para frente) podem ser uma referência a “polêmica” de “Goner” reverso. Caso você não saiba, por algum tempo muitos fãs acreditaram em teorias sobre a música “Goner” ter mensagens violentas e autodepreciativas quando ouvida de trás para frente, o que já foi confirmado pela banda como mentira.

Também vale a pena reparar que NATN faz referência a “Jumpsuit” e que as duas músicas foram lançadas juntas, dando início à era Trench, e que o clipe de NATN é continuação do clipe de “Jumpsuit”.

Cut My Lip

Poderíamos dizer que “Cut My Lip” também é uma das favoritas de muitos fãs, mas são tantas favoritas que a gente não quer elogiar demais uma ou outra. Ela tem a menor letra do álbum, mas é a terceira mais longa por conquistar espaço com sua parte instrumental. A temática lembra bastante as “vibrações venenosas” de “Chlorine”, e o que Tyler diz estar bebendo pode ser o cloro da música anterior, metaforicamente falando, é claro, já que beber cloro é extremamente nocivo à saúde.

Do ponto de vista da narrativa, CML pode ser sobre insistir em seguir o caminho para fora de Dema mesmo sabendo que ele é doloroso. É como buscar a purificação interior para se chegar a um destino melhor do que o local onde você está agora, mesmo sabendo que durante essa “limpeza”, você vai se deparar com coisas sobre si mesmo que talvez não esteja pronto para lidar. É uma grande metáfora para representar a luta diária contra a depressão, a ansiedade, ou problemas em geral.

De um ponto de vista mais literal, CML é sobre voltar sempre a algo que te faz mal por conta das propriedas positivas que essa coisa te traz. Alguns fãs relacionaram a letra a situações específicas, como tentar se livrar de um relacionamento tóxico, de amigos que te fazem mal, e até mesmo sobre não conseguir parar de beber, por exemplo. Seria como uma reflexão sobre algo que não é totalmente positivo e nem negativo, mas do qual você precisa seguir em frente.

Bandito

Essa é a canção mais longa no álbum, com 5 minutos e 31 segundos de duração. Ela é metalinguística, o que significa que, ao mesmo tempo em que ela usa metáforas do universo de Dema, Tyler fala como o compositor que escreveu a canção, e não apenas como o eu lírico dos versos.

Bandito é como são chamados os rebeldes de Dema, que fogem para os acampamentos de Trench. A música é basicamente um grito de guerra. twenty one pilots respondeu um fã durante uma sessão de perguntas e respostas no Reddit, dizendo que a frase “sahlo folina” é o que os banditos gritam em Trench quando estão precisando de ajuda.

“High road”, no refrão, é uma expressão em inglês para se referir ao caminho ou jeito mais fácil de se resolver ou conseguir algo. Tyler abre a música cantando que não vai pegar a estrada fácil, sabe que irá por baixo, pois é um bandito. Isso significa que ele não vai se render ao controle de Dema, se empenhando em fugir dos bispos e seus princípios vialistas.

A primeira estrofe começa explicando “sahlo folina”, que só aparece mais adiante na canção. “Esse é o som que fazemos quando estamos entre dois lugares”: como a banda explicou no Reddit, esse é o grito dos banditos quando precisam de ajuda entre as fronteiras de Dema e os acampamentos rebeldes em Trench, a área fora dos muros. Os versos “onde nós costumávamos sangrar e onde nosso sangue precisa estar” reforçam a teoria de fãs de que sahlo folina é um anagrama (letras embaralhadas) para a frase “all ohio fans” (todos os fãs de Ohio). Ao mesmo tempo em que é uma palavra inventada para o universo do álbum, pode ser uma retomada às origens da banda. É como se Josh e Tyler pedissem apoio dos primeiros fãs para que twenty one pilots continue com sua força.

A segunda estrofe continua descrevendo a rotina dentro de Dema. Lá, ele sente o espírito dele sendo contido, reduzido, limitado. “Como neon dentro do vidro, eles formam meu cérebro” é uma referência aos artefatos de luz que os bispos criam no vídeo de “Nico and The Niners”. Ao que entendemos, os Bispos usam os artefatos de neon como parte do seu programa de manipulação mental. Além de existir uma ligação com “Neon Gravestones” por conta do atrativo da luz, no vídeo de NATN vemos que as barras de neon criadas pelos bispos formam um símbolo que lembra a logo da banda, |-/, de cabeça para baixo, como se estivesse invertendo o seu significado. Se o original significa “fiquem vivos e criando”, dá pra imaginar o que a logo invertida simboliza. É uma interpretação mais obscura que lembra o símbolo da cruz cristã, que ganhou significado do Anticristo e do Apocalipse quando colocada de cabeça para baixo, em contraste com a mensagem de Jesus e redenção quando está posicionada de pé.

O canto de “sahlo folina” é um momento mais delicado da canção. Josh e Tyler já declararam que são fãs da banda Sigur Rós, famosa por compor canções em um idioma que eles mesmos criaram, o que pode ter sido inspiração para a criação deste pedido de ajuda em uma língua inventada. Alguns fãs acreditam que a frase não partiu do zero, pois “sahlo” é uma palavra da língua somali que significa algo como “ativar” ou “despertar”, e Folina é um nome que significa criatividade ou expressão criativa. Então a frase pode simbolizar um despertar da criatividade, que é o que um compositor faz ao criar um álbum novo e todo o universo por trás dele.

Por fim, Tyler anuncia: “eu criei esse mundo para sentir algum controle, posso destrui-lo se quiser”, mostrando a vulnerabilidade de sua criação. Ele é um artista, escreve palavras e compõe as melodias para dar sentido ao que pensa e sente, mas pode muito bem destruir todas essas ideias e deixá-las de lado se quiser. Ele não está literalmente preso em Dema, mas a metáfora o ajuda a superar algo, embora ele lembre que por ser apenas uma criação, poderia muito bem se livrar disso quando quiser.

Pet Cheetah

A música mais agitada do Trench é a que mais toca no assunto da inquietude e da ansiedade. “Pet Cheetah” é sobre um momento da produção do álbum em que Tyler ficou oito dias sem escrever um verso sequer e decidiu pegar uma batida que seria deletada para exercitar suas habilidades de produção com ela. Vale lembrar que Trench foi totalmente escrito e produzido apenas por Tyler Joseph e Paul Meany, vocalista da banda MUTEMATH. Foi o álbum da banda que recebeu menos influências externas em todo o seu processo de criação, e portanto, o que mais exigiu de Tyler.

Em uma entrevista para a SiriusXM Hits 1, ele falou sobre a música: “Foi algo que me ajudou a superar um bloqueio criativo pelo qual eu estava passando”. Se você pensar nisso, “Pet Cheetah” tem uma relação curiosa com “Migraine”, onde Tyler canta que não tem um bloqueio criativo, é a mente dele que odeia o relógio. Quando Tyler canta em “Pet” que se move devagar, ele está dizendo que está fazendo música no seu próprio tempo, sem se apressar mais do que deve. “O problema” que ele está procurando é algum erro ou algo a ser modificado no álbum. Em agosto de 2018, dois meses antes do lançamento de Trench, Tyler tweetou que o álbum já estava finalizado, mas que ele continuava fazendo pequenas modificações nas músicas.

Mas por que um guepardo de estimação? Há várias teorias. Mas a ligação mais forte é que existe uma marca de teclados chamada Cheetah (guepardo), e como Tyler fala que esse guepardo está no porão fazendo batidas, isso nos lembra o que ele falou em “The Hype”, sobre fazer música em seu porão. Além disso, o guepardo é um animal muito veloz, sem dizer que ele é amarelo e preto, como as cores da era Trench. O motivo para chamar este guepardo de Jason Statham é porque esse é o nome do ator famoso pela franquia “Carga Explosiva” e “Velozes e Furiosos”, filmes com muita ação e velocidade.

Falar que a casa dele é onde os abutres fizeram ninho também é mais uma retomada ao simbolismo recorrente dessas aves que se alimentam de restos mortais e até mesmo coisas podres. Eles são muito importantes para Trench, afinal, já que até mesmo há um ano na capa do CD. Isso nos lembra “Levitate”, em que Tyler diz que é um abutre que se alimenta de dor. Aqui ele volta a criar uma metáfora que represente o ato de fazer arte se inspirando em sentimentos negativos.

Quando Tyler diz que o seu pensamento nepotista vai ajudar a conseguirmos o que queremos, ele está dizendo que coloca a família e as pessoas próximas a ele em primeiro lugar sempre. Na política, não pega muito bom se falar sobre nepotismo, que seria o ato de favorecer membros da própria família ou amigos a cargos de poder sem qualificação especial. Mas aqui, onde Tyler fala sobre sua proximidade com o Clique/os fãs, essa mentalidade soa como algo positivo. Ele fala sobre como o Clique é importante e o faz ter medo das próprias músicas, no sentido de que ele fazer algo ideal para que os fãs não se afastem do grupo.

Legend

A penúltima música do álbum é sobre o avô de Tyler, que morreu durante a produção do disco em 17 de março de 2018. Robert já tinha sido foco na arte da banda antes, da capa do Vessel. O senhor à esquerda é a vô de Josh, e o da direita, o avô de Tyler. Pelas letras, é possível deduzir que ele sofreu complicações do mal de Alzheimer, já que ele esqueceu quem Tyler era e não reconhecia mais o rosto do neto.

O verso “Meu nome do meio” se refere ao nome completo de Tyler, Tyler Robert Joseph, dado em homenagem ao avô. Quando ele diz que queria que “ela” tivesse conhecido Robert, está falando sobre Peppler Chloe Joseph, sua sobrinha que nasceu um mês após a morte do avô. É interessante pensar que “Legend” faz o que “Neon Gravestones” propõe, ao celebrar a vida de alguém que viveu bastante.

Também podemos interpretar que quando Tyler começou a compor a canção, seu avô ainda estava vivo, mas a masterização e a edição não ficariam prontas a tempo para que Robert ouvisse a música finalizada.

Leave The City

A última música do álbum encerra a história com uma mensagem que não é exatamente um final feliz, mas é o final mais feliz possível. Tyler decide que um dia, quando a hora chegar, ele vai deixar a cidade (Dema), que simboliza seu estado mental fragilizado, seus problemas psicológicos e traumas, mas que por enquanto ele se contenta com o fato de ainda estar vivo.

Admitir que se tem um problema pode ser difícil, e também é difícil entender que pode levar tempo para que dias melhores venham, mas Tyler se agarra a essa expectativa. A chama à qual ele se refere ao dizer que está fazendo de tudo para mantê-la acesa parece ser essa esperança de um dia melhorar e “deixar a cidade”.

A estrofe final parece falar sobre o ano em que a banda ficou longe dos holofotes. Tyler diz que não estava conseguindo acompanhar o ritmo das mudanças e precisou desacelerar as coisas, algo que também lembra o tema de “Pet Cheetah” em relação ao tempo.

Quanto à frase “eles sabem que está quase terminado”, Tyler confirmou em uma entrevista que “eles” são os fãs, mas que o resto está aberto à interpretação. O que está perto do fim pode ser a música, o álbum, o fim da era Trench, o fim do sofrimento… Alguns fãs acharam até que isso podia significar o fim da banda, ou ao menos o início de uma pausa ainda maior do que a que anteceu a era Trench, principalmente depois de uma entrevista para a Rolling Stone Itália que deu destaque à canção na manchete e terminou com o seguinte diálogo:

Rolling Stone: Bem, quantos álbuns vocês pensam em gravar nos próximos 10 anos? Três?
Tyler: Não, apenas um. Mas com 40 anos tocaremos melhor ainda.

O que você acha?

A canção também tem o mesmo peso de “Truce” no álbum Vessel e “Goner” em Blurryface com sonoridades e letras vulenráveis encerrando cada álbum.


< Blurryface (2015) | LETRAS E TEØRIAS


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